Então que alguém de bobeira (que espero que não tenha sido meu pai) resolveu ressuscitar pelo Facebook um post meu do ano passado, sobre porque eu sempre digo que a decisão de voltar a viver no Brasil vai ser muito mais difícil da que um dia foi decidir morar na Espanha.
Então que vivemos num mundo onde estamos todos “enredados” e porque um curtiu aqui e outro compartilhou ali (menos Luiza que está no Canadá), acabei caindo na boca do povo. Passei o domingo (de chuva, diga-se de passagem) recebendo mensagens de amigos dizendo que meu texto estava “bombando” nos seus murais e TLs da vida.
Então que comecei a receber uma enxurrada de comentários de todos os tipos (e sigo recebendo). E euzinha, que estou acostumada com a minha vida modesta e tranquila, acabei ouvindo muitos elogios e depoimentos legais, mas também teve muita, mas muita gente mal educada que me escreveu direta e indiretamente.
98% dos comentários das pessoas que moram ou já moraram fora me apoiaram em algum sentido. Gente que conhece o “problema” de primeira mão. Alguns até conseguiram emocionar esse coração duro, demonstrando sensações e experiências de vida tão parecidas com as minhas. Ninguém é cego, a Europa está cheia de defeitos, mas em muitos quesitos os pontos positivos se prevalecem sobre os negativos. É assim, acredite quem quiser, viva quem puder.
Por outro lado, 98% dos comentários das pessoas que nunca saíram do Brasil – ou só saem de férias e com dinheiro no bolso – me criticaram negativamente. O engraçado é que a maioria parecia ter raiva do meu depoimento, muita gente me chamou de idiota, de deslumbrada, alguns disseram que eu desprezo o país onde nasci (oi?), que pessoas como eu não deveriam voltar mesmo ao Brasil (teve um que disse que eu nem deveria ser chamada de brasileira), que com a minha vida de “estudante solteira” era fácil viver bem já que não deveria ter preocupações (inclusive um dito cujo sugeriu que eu me casasse com um gringo rico, já que aqui “a cenourinha parece mais atraente”), outro disse que tinha pena de mim por eu querer fugir do Brasil (oi? de novo), que tenho medo do Brasil, e tantas outras barbaridades, muitas impublicáveis e bastantes desrespeitosas que foram parar diretamente na minha lixeira.
Certas pessoas (desculpem por devolver a grosseria, mas imagino que faltaram a aulas de leitura e interpretação de textos), disseram que eu generalizei e que a Europa não é tudo isso que eu pintei. Detalhe: em nenhum momento eu sequer citei a palavra “Europa” no texto e fui bastante clara quando comentei que estas eram as minhas preocupações e reflexões comparadas ao meu contexto imediato (cheguei sim a citar que vivo em Sevilla, por razões óbvias, e que isso é o «sul» da Espanha). Afinal, como divagar sobre o lado negro da Europa se o texto era exatamente para salientar as suas qualidades e o porquê eu acho difícil pensar na ideia de voltar à terrinha? Ora bolas, se eu começasse a reclamar só dos defeitos era melhor sair correndo, né não? É im-pres-si-o-nan-te!
Das pessoas que eram contrárias a minha opinião, grande parte fez o seguinte julgamento: definitivamente estou dando as costas ao meu país (um comentarista disse que eu “negligenciei a minha evolução aos meus pares”). A conclusão deles é de que eu (e você expatriado e expatriada, também se incluía no montante) deveria voltar ao Brasil e fazer dele um lugar melhor. E é aí que eu fico na dúvida. Será mesmo que todo mundo que critica quem vive fora está fazendo algo pelo nosso país? Falar que o outro não faz nada (isso sem saber se o outro, no caso eu, faço alguma coisa) é realmente bastante fácil… Difícil é fazer em exame de consciência e descobrir se você mesmo está fazendo alguma coisa. Onde está o povo na hora de lutar contra a corrupção? Você se lembra em quem votou nas últimas eleições? Você faz parte de alguma associação de bairros ou vizinhos? Participa de algum centro cultural? Faz algum tipo de trabalho voluntário? É do tipo que dá esmola e ajuda às criancinhas carentes somente no Natal? Quem ai saiu às ruas nas últimas manifestações contra os governos e os bancos apoiando um movimento a nível mundial? Quem conhece o movimento da democracia já (por citar um movimento que propõe uma nova democracia, mais participativa)?
Tenho plena consciência de que o Brasil está cheio de gente interessada no bem comum, na luta pelos direitos humanos, na preservação do meio ambiente, no acesso à educação, enfim, são muitas as organizações sérias compostas por cidadãos comprometidos com um futuro melhor para o Brasil (organizações e movimentos formados por gente do povo, porque os governos, estes sim, só estão comprometidos com a folha de pagamento de seus funcionários e olhe lá). Seria realmente muita injustiça afirmar que ninguém está ai para nada, porque isso não é verdade. Mas duvido que metade dos que aqui me julgaram por “abandonar” o Brasil estejam envolvidos diretamente com alguma causa social ou ambiental.
De todas as críticas, as que eu considerei mais fundamentadas são as relacionadas com a dívida cultural e ecológica que os países do norte têm com os países do sul, ou seja, algumas pessoas argumentavam que a qualidade de vida que se tem aqui é à custa da exploração dos países mais pobres. E em certo ponto tem razão, mas não acho que atualmente precisamente o Brasil seja uma vítima. É bem verdade que temos uma história recente de exploração que em boa parte nos transformou no que somos hoje. Mas convenhamos que para quem aparece hoje como a 6ª economia do mundo, esse papo de dizer que ainda somos explorados é contraditório. O Brasil hoje em dia está na condição de ditar as regras, bem diferente de países da África, alguns da Ásia, da maioria da América Latina e até mesmo de muitos da Europa. E de que adianta estar entre os 10 mais do PIB e ocupar a 84ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano? Algo na nossa maneira de planejar o “desenvolvimento” está errada. Mas isso dá muito pano para manga e é melhor deixa o assunto para outro post.
Enfim, passei 25 dos meus 32 anos em Pelotas, cidade no extremo sul do país, anos felizes. Não sai fugida e nem porque vivia mal ou estava louca por um trabalho, mas sim porque queria ter a experiência de morar no exterior, aprender outro idioma, conhecer novas culturas, novas formas de viver e de se relacionar diferentes das que eu conhecia. Vim, vi e gostei. Não me arrependo de forma alguma e sinto muito se isso incomoda a quem nunca pode/quis fazer o mesmo.
Sigo com a dúvida se o Brasil é, hoje, o melhor lugar para mim neste momento. Sigo pensando que gostaria de passar aqui mais um tempo. Sigo achando que em muitos aspectos a vida que tenho aqui é melhor da que tinha no Brasil. Aqui, aqui mesmo na Calle San Vicente, 47 / Sevilla, e não na França, Alemanha ou Itália. É aqui que eu moro e é daqui eu tiro as minhas conclusões e comparações. É aqui que sinto falta da minha família e dos amigos e amigas de toda vida, mas também é aqui que fiz outros tantos amigos (não necessariamente brasileiros) que me beijam e abraçam. Entre as frases sábias dos comentaristas estavam muitas que diziam que o melhor lugar para se viver é aqui e agora. Agora vivo aqui, amanhã, quem sabe…
No momento prefiro fazer a minha parte aqui, fazendo meus trabalhos voluntários em ONGs que ajudam a países do sul (quem sabe economicamente muito mais desfavorecidos que o Brasil), participando de grupos de consumo de produtos locais e ecológicos, estudando um lado do urbanismo que pouco de aprende nas Faculdades de Arquitetura. Não sei se um dia eu conseguirei aplicar tudo o que eu aprendi, e venho aprendendo com essa gente do lado de cá, no Brasil. Mas eu gostaria. Estou estudando para isso, para intercambiar experiências e ajudar a formar novos arquitetos e urbanistas que se preocupem com o direito que todos temos às cidades, e não somente com a sua conta bancária.
Felizmente, fico apenas com as críticas construtivas. Das mais de 30 mil visitas em três dias que o Coisa Parecida recebeu (tudo devido as curtidas alheias), espero ter conquistado mais leitores e leitoras. Gente que volte aqui porque tem interesse em saber como funcionam as coisas na Espanha, algumas coisas parecidas, outras nem tanto. Espero visita de pessoas que gostam de ler as coisas que eu escrevo e, principalmente, que consigam manter a conversa com certo nível, seja para discordar ou concordar com a minha opinião. Não preciso de visitas de pessoas que necessitam descarregar sua raiva, angústia ou frustação.
É isso, vivendo e desaprendendo. Obrigada a todos os comentários construtivos via post, twitter, face, e-mail.
E bora mudar de assunto que este já me cansou.
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