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Glenda DiMuro On October - 10 - 2008

Preconceito. Tema difícil, mas que merece muito ser comentado. Moro na Espanha há quase três anos e, por sorte, acho que posso contar nos dedos as vezes que fui pré-conceituada. Digo isso porque nasci no Brasil, terra do futebol, do carnaval, mas sou branca, descendente de alemães, uma “alemoa” disfarçada, já que meu cabelo e olhos castanhos puxaram o lado mais “abrasileirado” da minha mãe. A maioria dos latinos, infelizmente, não têm a mesma chance, principalmente os equatorianos, venezuelanos e bolivianos, nacionalidades de grande presença em território espanhol.

No início desse ano, o tema veio à tona depois que muitos brasileiros foram barrados ao tentar entrar no país (ou simplesmente fazer escala) pelo aeroporto de Barajas, em Madrid. Uma rede de prostituição descoberta e a proximidade das eleições espanholas agravaram o fato. Muitos reclamavam de maus tratos, sexismo e arrogância, eram estudantes, trabalhadores de férias e com certeza, alguma prostituta (é uma realidade, infelizmente). Passados os fatos e o pagamento na mesma moeda nos aeroportos brasileiros, acho que a coisa se acalmou nas fronteiras.

Também no início do ano, quando os candidatos ao governo estavam expondo suas propostas, o tema da imigração voltou a surgir com força. Um dos candidatos estava propondo que todos os estrangeiros assinassem um “contrato de integração”, algo ridículo, absurdo e quase xenófobo. Na época escrevi um post sobre o assunto que pode ser lido aqui.

No dia-a-dia posso dizer que não sofro preconceito, mas também não passo despercebida. O sotaque brasileiro não engana ninguém e até o mais perfeito, sempre falha em algum momento. Costumo ser confundida com os italianos, pelo jeito cantado de falar. Por causa disso tive dificuldades de alugar apartamento, já que muitos não alugam para estrangeiros (sejam eles latinos, americanos, africanos ou italianos) sem contrato de trabalho ou comprovação de renda. Mas no Brasil, tu alugarias um apartamento para alguém sem essa documentação? Sem fiador? Difícil…

Repito, os outros latinos, principalmente os com traços indígenas ou negros sofrem muito mais preconceito. Tenho conhecidos que já relataram algumas situações onde se sentiram incomodados, o preconceito é sutil, mas existe. Romenos, marroquinos (aqui são chamados de mouros) e africanos eu acredito que devam passar pelos mesmos problemas. Não é comum ver pessoas dessas nacionalidades infiltradas entre os espanhóis, seja nos bares, nas festas da cidade ou nos restaurantes. A maioria vive num bairro de estrangeiros, trabalha na construção civil, em restaurantes ou empresas de limpeza ou vendendo DVD pirata e lenços de papel nas sinaleiras (sim, isso existe aqui, como também aquelas pessoas que jogam água suja no teu pára-brisa para limpar enquanto o semáforo não fica verde e flanelinhas). Digo a maioria, não a totalidade.

Nunca fui agredida verbalmente nem nunca me senti diminuída. O espanhol em geral, gosta dos brasileiros, acho que somos considerados um povo alegre e até o momento não ameaçador, ou seja, o número de brasileiros “ainda” não é tão grande como das outras nacionalidades latinas como que para “roubar” empregos ou causar transtornos na ordem pública. Muitos estrangeiros são presos por delinqüências e desordem, mas imagino que a publicidade disso deve ser maior do que quando um espanhol é responsável por esses atos.

O que mais me irrita é que eles imaginam que todo brasileiro tem samba no pé e é negro ou mulato. Muitos já se espantaram com meu tom de pele ou me pediram para dançar. O estereótipo da mulata gostosa e com bunda grande é bem vivo na imaginação dos espanhóis.

Enfim, um estrangeiro passa por inúmeras dificuldades, seja na hora de pedir um empréstimo, de alugar um apartamento ou de conseguir um trabalho na sua área, principalmente quando é um “sin papeles”. Uma pessoa, não importa a sua nacionalidade, em situação ilegal no país sofre muito, é explorada e não tem direito a quase nada. Recebe salários muito mais baixos que o normal e necessita trabalhar muito mais horas para sobreviver. Vida dura.

A Espanha enfrenta uma grave crise econômica e imagino que o preconceito deva aumentar mais com a batalha por um emprego. O lema “sirvo, logo existo” é mais que adequado nesse momento, já que as grandes empresas aproveitaram e muito a mão-de-obra estrangeira durante a expansão da economia. A crise deixou milhares de desempregados que agora procuram por novas oportunidades lado a lado com os espanhóis.

Por outro lado, vejo poucos movimentos ou ONGs preocupadas com a situação, principalmente aqui em Sevilla. O preconceito “mascarado” parece que faz parte da realidade e todo mundo se contenta com isso, já que na grande maioria das vezes a situação do imigrante é muito melhor aqui do que no seu país de origem. O mundo sem fronteiras é em realidade uma dicotomia, cruzamos dali pra cá, tanto informações como pessoas e culturas, mas de fato, não nos misturamos, a integração pode ser muito difícil e o surgimento do preconceito, infelizmente, se torna fácil.

Categories: Espanha

9 comentários

  1. Carlos says:

    VEJAM A INTOLERÂNCIA E CENSURA PRATICADA PELO BLOG “AMIGOS DE PELOTAS”

    Crônica “Paris é igual a Pelotas”:
    http://www.amigosdepelotas.com/2008/10/paris-igual-pelotas.html

    Comentário sobre a crônica “Paris é igual a Pelotas”, enviado ao Blog “Amigos de Pelotas”, porém inexplicavelmente censurado e não publicado no blog:

    É IMPRESSIONANTE!!!…

    Embora essa situação se repita com uma frequência previsível, nunca deixo de surpreender-me com ela.

    Creio mesmo que se trata de um fenômeno digno de um estudo sociológico ou antropológico. Porque não se refere apenas a uma situação apresentada pela autora da crônica ou por esta crônica em particular, mas de uma realidade mais ampla e recorrente, da qual esta crônica é apenas uma pertinente representação e síntese. Na verdade, nem se trata de uma crítica a esse texto especificamente, aliás um texto afetivo, jovial e poético, segundo me pareceu.

    Trata-se de uma tentativa de compreensão de uma realidade mais geral, ou seja, sobre a necessidade premente e, até mesmo, da ausência de pudor, com que o pelotense frequentemente insiste em comparar nossa cidade com Paris, Londres ou outro grande centro cultural mundial…

    Esse fenômeno, ao meu ver, como um pelotense que há cerca de 30 anos reside há mais de 3000 quilômetros da cidade, só encontra paralelo no conhecido bairrismo e megalomania encontrados nos argentinos, mais particularmente no porteño… Uma parcialidade, uma ausência do senso de conjunto, de um senso de referência, de um “desconfiômetro” mesmo, que impede que se perceba que as semelhanças entre Pelotas e esses grandes centros, são tão circunstanciais, tão pontuais e insignificantes mesmo, em relação a todas as outras diferenças, ao conjunto geral, que se torna absolutamente desproporcional e impertinente tentar explicitar alguma relação de semelhança. Uma parcialidade, fruto do amor pela cidade, suponho, que, na tentativa de unir o belo e sublime que se encontra numa Paris ou Londres, com o sentimento interno e profundo de amor que o pelotense tem pela cidade natal, faz com que extrapole, que perca as referências e proporções, para chegar a uma comparação direta, absurda e irreal. Uma parcialidade que não permite que se perceba que as circunstanciais e pontuais possíveis semelhanças entre Pelotas e esses grandes centros culturais, são semelhanças que, por sua insignificância e pontualidade em relação ao todo, podem ser também encontradas em milhares e milhares de outras cidades brasileiras, e que, portanto, não tem o mínimo sentido fazer tal comparação direta. Porém, muitos pelotenses não conseguem escapar dessa necessidade visceral de fazer essas grandiloquentes comparações…

    O que causaria essa ausência ou escassez do senso de proporção, do senso de realidade, tão frequentemente encontrada em nossa cidade?… Acho que a resposta a essa pergunta mereceria um estudo sociológico ou antropológico mais aprofundado.

    De um pelotense que gosta de manter os vínculos com a cidade.

    Carlos Germano
    Recife – Pernambuco

  2. Glenda Dimuro says:

    Carlos, boa a sua idéia de publicar os comentários “censurados”, ainda mais uma opinião que, ao meu ver, apenas expressa uma outra visão e não menospreza, diminui, afeta ou causa danos morais a autora do post.
    Concordo com muita coisa que criticas. Essa mania de pelotense se imaginar francês é de longa data… já estive em Paris duas vezes e NUNCA me senti como se estivesse em Pelotas. Mas essa identificação com a cidade européia deveria ser estudada com certeza. Certa vez fiz uma monografia sobre a influência francesa no patrimônio cultural de Pelotas (está publicada no meu site pessoal) onde relacionava aspectos desde a arquitetura do século XIX até hábitos do século XX. Mas um estudo sociológico profundo seria bem interessante, pois muita gente que nunca esteve em Paris acredito que alguma vez já se sentiu na capital européia ao tomar um café no Aquarius. Enfim, eu não vejo nenhuma semelhança, mas muita gente vê e isso deve ser respeitado (acredito eu). Me senti mais em Pelotas quando visitei a cidade de Porto, em Portugal, por exemplo. Ali sim, com a fiação elétrica dos postes, as ruas sujas, os predios abandonados, uma beleza peculiar.

  3. mineirinhanalemanha says:

    Muito legal seu texto. Apesar do preconceito, temos que continuar tendo orgulho de nossas origens e nos identificar com nossa pessoa, saber nos dar valor mesmo nas interpéries. E continuar a sonhar com o mundo sem fronteiras. 🙂 Um abraco, Sandra

  4. Mile says:

    Nossa, tô adorando seu blog, lendo vários textos. Parei neste para comentar. Tb nunca sofri preconceito, mas estou certa que é por causa da minha pele branca. Já falei milhoes de vezes aqui que somos multi-raciais, nao temos uma cara específica, somos muitos misurados por raças vindas do mundo inteiro. Mas cansei, que pensem o que quiserem. E tb escutei a frase: vc está tirando o emprego que poderia ser de um espanhol. Depois a pessoa disse que só tava brincando. Brincando né, mas soltou o que pensava. Respondi que esse era um comentário típico de gente de mentalidade fechada, que no Brasil o número de espanhóis é muitíssimo maior que o de brasileiros aqui e jamais na minha vida pensei que eles estavam lá tirando o emprego dos brasileiros, isso nunca nem me passou pela cabeça. E olha que o desemprego no Brasil é muito maior que o da Espanha.

    Bjoks

  5. Alessandra Mosquera says:

    É complicado… eu também sofri pouco preconceito até hoje, mas sofri, e ouvi muitos comentários que me doeram, mesmo nao sendo a minha pessoa. O espanhol é muito preconceituoso e racista, e detesto como eles nao querem assumir isso. Mas acho que é do ser humano, nao adianta. Meu pai é espanhol, mora no Brasil há mais de 50 anos, e quando trabalhava também escutou comentários preconceituosos de seus colegas brasileiros. Por isso, acho que a questao do preconceito contra o estrangeiro nao tem soluçao. Pelo menos por muitos anos… o ser humano tem medo do estranho, do que nao conhece, e tem medo que lhe roubem seu espaço. Nao adianta, na cabeça deles estamos roubando seus empregos, suas casas, seus homens (ou mulheres). É revoltante e triste, mas é a realidade. Onde moro sim existem ONGs, há um depto da prefeitura voltado aos imigrantes e tudo, fazem um fórum para discutir os problemas dos imigrantes todos os anos, e aí? Tudo continua igual. É preciso uma mudança muito grande da sociedade.

  6. Blog says:

    Meu, adorei o seu blog! Aquela foto da paella então…humm…aqui em São Paulo existe um lugar que se chama Don Curro, e dizemque lá existe uma paellamelhor do que na Espanha. Palavra de muitos espanhóis…rss…um beijão!

    Roberto Sena
    http://www.blogdosirmaos.com
    http://www.sampameulugar.wordpress.com

  7. Victoria says:

    Moro em Barcelona pela segunda vez, a primeira vez fiquei 9 meses, agora fazem 5. Voltei porque não consegui me readaptar com a vida no Brasil, a qualidade de vida aqui é muito melhor, e isso agora me lembra o texto sobre a dificuldade de quem morou fora voltar a viver no Brasil. Eu não consegui.
    Estou com um visto de estudante e acho que terei que seguir estudando até conseguir o permisso de residencia. Ficar ilegal não é uma opção pra mim, mas voltar pro Brasil também não.
    Posso contar nos dedos de uma mão só as vezes que sofrí preconceito por ser brasileira. Mas sei que isso tem tudo a ver com o fato de falar bem espanhol e ser do sul, todos aqui acham que sou alemã, pele clara e olhos azuis. Mas agora vou admitir uma coisa feia, eu prefiro assim. Acho que a culpa da imagem que a Espanha tem dos brasileiros é culpa do próprio Brasil, que se vende como um país de carnaval, futebol e mulheres semi-nuas. O Brasil não se leva a sério, basta ver a música brasileira que faz sucesso no exterior. Funk e agora Michel Teló… E parece que assim tá bom, o governo não tem interessa em mudar essa imagem. Eu não compartilho dela, não sei sambar, não sou fã de futebol e não tenho 100 cm de quadril. Acho mesmo quando vivia no Brasil já era uma expatriada, mas o pessoal do sul realmente já é mais europeu. Eu me achei aqui na Espanha e pretendo seguir aqui, ou algum outro lugar, mas infelizmente, do modo como está a situação no Brasil, a violência, o desrespeito, eu não tenho orgulho de ser brasileira…

  8. matroska says:

    Não sei qual a praga maior, brasileiro ou gafanhoto. Não fazem muito estrago sozinhos, agora experimenta juntar pra ver o que acontece. Daria tudo pra viver num país com boa qualidade de vida e com uma seleção de futebol ruim, esse é o único orgulho disso aqui que, aliás, está definhando na entressafra.

    E acrescento ao criador do tópico: no exterior evento que reúne brasileiros sempre acabam cheios de lixo nas vias públicas….depois pessoal reclama da má fama que os brasileiros tem por lá.

    A maior mentira do mundo e de que os estrangeiros apreciam o povo brasileiro. Só se for na Africa apenas.

    Porque nos EUA, Japão e Europa brasileiro é bem mal visto. Espanha tem uma péssima visão das mulheres brasileiras. Brasileira é puta para boa parte deles.

    A questão não é gostar ou não do Brasil.

    E sim do comportamento tosco dos brasileiros.

    Eu amo o Brasil.

    O maior problema do Brasil são os brasileiros.

    Veja a forma mal educada e porca de como boa parte dos brasileiros se comportam.

    É brincadeira, deixa qualquer um constrangido.

    É muita falta de educação e respeito ao próximo.

    Todo país tem seus problemas, o Brasil melhorou apenas em aspectos econômicos e financeiros e ponto final.

    Em termos de educação esta cada vez pior, povo muito mal educado.

    Eu tenho situação financeira boa felizmente. Dinheiro não é problema.

    O que invejo de certos países é a segurança e educação pois no Brasil temos indices muito grandes de criminalidade e falta de educação.

    Nos países desenv. esses problemas são bem menores.

    Fora que nesses 3 países todos os crimes que a ditadura militar cometeu estão sendo julgados. Muitos militares foram condenados e estão presos.

    Todo país possui seus problemas. Mas aqui no Brasil isso é muito abusivo.

    Embora a economia viva um bom momento, nossos indices de criminalidade são absurdos comparavel a países que estão em guerra civil.

    No japão mesmo com toda essa crise a criminalidade é baixissima. Cidades de 1 milhão de hab. tem menos crimes que cidades de 10mil hab do Brasil.

    A falta de educação tambem é absurda. Em todo país tem pessoas mal educadas, mas aqui no brasil o indice é muito grande.
    Vejam nossas ruas e o lixo nelas só como exemplo.

    Nem preciso mencionar de nossos políticos.

    Milhões foram desviados no ministério dos transportes. E o que aconteceu?? Apenas umas pessoas foram demitidas. E o prejuízo quem vai pagar??? Claro que somos nós.

    O Brasil é um dos piores país em distribuição de renda no mundo. Só perde de países africanos nisso.

    Pode riscar da tua lista EUA, inglaterra, portugal, franca, espanha, japao, coreia, argentina….

    O q vc + ve sao brasileiros se comportando como completos babacas la fora, e detalhe, vestindo a camisa do brasil.

    Eh o rei sentando num trono feito de merda.

    A única excção para mim seriam alguns países da Africa, Cuba e Venezuela onde brasileiro é bem visto. Países de merd…. er maravilhosos não?

    Espanha então nem se fala. Mulher brasileira para eles é prostituta e homem vagabundo ou bandido.
    E não é com raiva do seu país não, mas sim dos brasileiros mal educados, ignorantes, criminosos e desrespeitosos que infelizmente são em grande número, enquanto que em vários países representam apenas uma minoria.

  9. Marcelo says:

    Muito interessante o que escrevestes.Também morei fora, nos EUA, e lá também não sofria preconceito.Também credito isso à minha pele branca e olhos claros.Lembro que uma vez fui comprar um perfume francês com um amigo americano e como falo francês, falei o nome do perfume perfeitamente e a vendedora admirada, muito simpática, me perguntou se eu era francês.Meu amigo logo falou que eu era brasileiro (isso ocorreu em uma cidade do meio-oeste americano) e a vendedora ficou séria e perguntou se era verdade.Disse que sim e ela, admirada, disse que não imaginava que houvesse brasileiros com meu tipo físico.Tive de explicar que o Brasil é multi-étnico, com grande imigração européia, etc.Mas é isso, tudo fruto de uma imagem inverídica vendida pela mídia brasileira que acaba por indiretamente dar esse sentido de expatriado aos brasileiros que não cumprem com o estereótipo comum vendido de sambista e jogador de futebol.Uma pena, pois de fato as pessoas acabam tendo uma imagem parcial de um País continental e com grande diversidade cultural.Ah também odeio futebol, não sei sambar e odeio funk rs.

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Glenda Dimuro