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Glenda DiMuro On August - 25 - 2009

As atitudes do ETA sempre foram reprovadas pela sociedade mas durante muitos anos poucos se atreveram a expressar este sentimento em voz alta, já que a organização tratava de eliminar todos que discordavam de sua política. Somente a AVT (Asociación de Víctimas del Terrorismo) mostra a sua cara desde que foi criada, em 1981, para atender aos atingidos por ações terroristas. Autodenomina-se como uma organização apolítica de caráter benéfico assistencial e conta com mais de 6 mil beneficiados, espalhados por Madrid (30%), País Vasco e Navarra (15%) e resto da Espanha (55%). Foi impulsionada por pessoas que sofreram diretamente os ataques terroristas e que durante muitos anos lutaram contra a incompreensão social e a falta de recursos. Atualmente é mantida pelos ministérios da Defesa e Assuntos Sociais, governo municipal e das comunidades e ainda por doações de particulares.

Nas últimas décadas os cidadãos têm se manifestado de forma mais ativa e contundente e surgiram diversos coletivos sociais contra esse tipo de violência. O primeiro foi “Gesto por la Paz”, um movimento pacífico, cívico, pluralista e independente de qualquer partido ou instituição. Desde 1986 constitui uma organização civil que busca a legalidade dos Direitos Humanos, que o governo promova a erradicação da violência por meios legais e a paz através da mobilização cidadã, conscientizando-lhes de sua responsabilidade no processo e fomentando assim uma nova cultura sem violência.

Também existe o movimento social Elkarri que surgiu no País Vasco um pouco mais tarde, em 1992. Tem mais ou menos os mesmos marcos de referência, como a defesa dos Direitos Humanos e a reprovação da violência como método de ação política. Seu objetivo é transformar a situação de violência em Euskadi em uma situação de diálogo e acordos. Existem mais de 250 mil sócios contribuintes e 1200 militantes (Elkarri financia 85% dos seus gastos). Mais de cem oficinas da organização estão espalhadas por Madrid, País Vasco, Barcelona e inclusive por Bruxelas.

Seguindo a estes dois exemplos, foram criados outros coletivos, entre eles:

Manos Blancas: união espontânea de um grupo de professores, estudantes e funcionários da Universidad Autónoma de Madrid que se organizaram depois do assassinato do ex-presidente do Tribunal Constitucional e professor do campus Francisco Tomás y Valiente, em 1992. Pretende ser um ponto de encontro e solidariedade com as vitimas terroristas.

Foro Ermua: surgiu depois do assassinato de Miguel Ángel Blanco, consejal do Partido Popular, em 1997. É um grupo bastante heterogêneo, formado por militantes do PSOE, PP, Nueva Izquierda, pacifistas, artistas, jornalistas, estudantes, profissionais, que fomentam a regeneração política, social e cultural, a través da promoção de valores universais e da recuperação dos princípios básicos da convivência.

COVITE – Colectivo de Víctimas del Terrorismo: nasceu no País Vasco em 1998. Considera imprescindível que os criminosos reconheçam seus delitos e assumam os danos causados a milhares de pessoas inocentes e a dor causada à sociedade vasca e espanhola. Exigem uma investigação profunda sobre todas as atrocidades cometidas pelos terroristas contra os cidadãos e o julgamento sem perdão.
¡Basta ya!: um grupo com diversas ideologias decidiu em 1999 se opor ativamente a qualquer forma de terrorismo, ajudar às vítimas a defender seus direitos. Com esses princípios tentam mobilizar a sociedade e lembrar às instituições sobre suas obrigações. As atividades são subsidiadas por doações.

Essas são apenas algumas das muitas fundações, organizações e coletivos sociais que se unem em combate ao terrorismo e apoio às suas vítimas, muitas delas civis e inocentes. Durante as cinco décadas de sua existência, ETA matou quase 900 pessoas, entre elas cerca de 400 guardas civis e policiais. A maioria dos mortos é do sexo masculino (93%) e mais da metade dos atentados ocorreram no próprio País Vasco (67%), seguido de Madrid (14,5%) e Cataluña (6,5%), e inclusive na Andalucía e em Sevilla (o último, segundo minha pesquisa, aconteceu no final da década de 90). Recentemente em Mallorca, dois guardas civis foram as ultimas vítimas da organização terrorista.

A maioria dos espanhóis não declara abertamente que sentem “medo” do ETA, mas sim indignação e preocupação. Muitos dizem, e com razão, que amedrontar a população é um meio utilizado pela organização terrorista para conseguir seus objetivos e, portanto, não se deve sentir medo para não fortalecer o inimigo.

Recentemente foram desarticulados alguns comandos do ETA na França e efetuadas diversas prisões de membros e “cabeças”. Mais de 100 quilos de explosivos foram encontrados, o que significa que eles estavam planejando outro atentado. Sempre estão. A luta contra o terrorismo é uma constante no governo espanhol e imagino que muitos euros sejam invertidos nessas atividades. Apesar de todos os esforços, o bando segue atuando e provocando vítimas mortais.

E por que não ceder? Se eles querem se separar, pois que se separem! Ou isso abria espaço para a independência da Cataluña, da Andalucía e seria o fim da Espanha? O tema é complicadíssimo. Muitos vascos apóiam a ideologia inicial do ETA e estão dispostos a dialogar, mas são contra a luta armada. Enfim, o tema dá “muito pano pra manga” e acho que podemos parar, pelo menos por enquanto, por aqui. Esta série de posts serviu para eu conhecer mais sobre um dos principais desafios do país em que estou vivendo. Espero que tenha sido bastante esclarecedora e que os visitantes do blog também tenham aumentado seus “conhecimentos gerais”, principalmente aqueles que pretendem morar na Espanha.

Categories: Espanha

Um comentário

  1. txema says:

    Fiquei impressionado pelo conhecimento e a objetividade que você mostra nos posts do seu blog ao problema do terrorismo etarra na Espanha.
    Sou vasco (de Bilbao), já morei em Brasil (Salvador de Bahia ficou no meu coração para sempre) e falei com muito espanhol (pois agora moro em Sevilha) e brasileiro deste tema. Ao final de contas sempre sai em qualquer bate-papo que a gente tem quando o pessoal descobre de onde sou. Poucos mostraram tanto conhecimento como você.
    Tenho pouco que adicionar. Só tal vez alguma coisa sobre as conseqüências de este problema em Euskadi. Hoje uma enorme maioria de vascos repudia o terrorismo de ETA, mais têm uns poucos que o apóiam (o ódio ficou no seu interior), outros não tão poços que o desculpam (pois carecem de empatia para sentir o sofrimento alheio, não bem o de seus achegados) e desgraçadamente muitos que o ignoram, vivendo o dia a dia como se ETA não existisse (quando acontece um atentado no falam dele e não por medo, não, como normalmente se fala na Espanha) . Esta falta de sensibilidade de muitos de meus compatriotas gera uma sociedade enferma que eu aborreço e, como muitos outros vascos que moramos fora de Euskadi, me impede estar a gosto no meu próprio pais.
    Tem também gente (e muita) no Pais Vasco que sofre com o sofrimento das vitimas, sejam o não vascas. E cada vez somos mas. A eleição de Patxi Lopez como lehendakari vasco neste ano é uma mostra clara disso. Eu espero que este novo governo vasco faça muito para conseguir concienciar e despertar a essa sociedade que era um exemplo de convivência entre diferentes quando eu era menino (a metade dos vascos de hoje provenieram de outros lugares da Espanha nos anos 50-60).
    Saudações
    Txema Hurtado

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