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Glenda DiMuro On May - 28 - 2010

Apple começou a vender esta semana em vários países da Europa o iPad, seu tablet mini portátil que diz que vai revolucionar o mundo da informática, tal como fez o iPhone com a telefonia móvel. Quando foi lançado nos EUA, muitos fizeram fila para serem os primeiros em comprar a novidade. No Brasil, já tem gente coçando as mãozinhas e aguardando ansiosa pelo anuncio da sua venda no país, ainda sem previsão.

Como todo mundo já está cansado de saber, todos estes produtos são feitos bem longe dos EUA ou do Brasil, são Made in China, mais precisamente numa cidade chamada Shenzhen a 40 km de Hong Kong.

Eu nunca saberia da existência dessa cidade não fosse pelos acontecimentos sinistros que andam ocorrendo nos últimos tempos. Desde o início do ano, nove funcionários do Foxconn (grupo industrial responsável pela fabricação dos produtos da Apple e de outras empresas como Nokia, HP e Dell) se suicidaram e outros dois tentaram, mas não conseguiram. O último incidente, ainda sem a confirmação oficial, teria acontecido nesta quarta-feira.

O sindicado alega que as mortes dos trabalhadores, que tinham entre 18 e 24 anos, são resultado da pressão insuportável e das péssimas condições de trabalho a que são submetidos. Já o presidente da empresa, Terry Gou, diz que não é nada disso, que os suicidas tinham problemas pessoais, como dívidas com jogo e desilusões sentimentais e assegurou que está disposto a revisar todo o seu plano de produção e contratar até dois mil psicólogos para tratar os funcionários problemáticos.

Não sei a quem o presidente da Foxconn pensa que está enganando. Também estamos cansados de saber que na China não se cumprem leis trabalhistas, que o povo trabalha em regime de semi-escravidão, e que muitas jornadas de trabalho são de 16 horas diárias, com salários que giram em torno a míseros R$250 mensais.

Há 20 anos, Shenzhen era uma aldeia de pescadores. Hoje é um mega pólo tecnológico cheio de arranha-céus onde vivem e trabalham 14 milhões de habitantes. São estes trabalhadores que alimentam a nossa fome tecnológica, os nossos desejos mais insaciáveis e imprescindíveis. Estamos todos cansados de saber de muitas coisas, mas parece que na maioria das vezes fingimos não conhecer a realidade. Enquanto multinacionais como a Apple e a Foxconn ganham rios de dólares e nós deliramos com os mais novos produtos do mercado, chineses fazem trabalhos forçados e morrem a cada dia, pois não é preciso se atirar de uma janela para já estar quase morto.

Que a China é uma grande potência econômica não resta dúvidas. Já sabemos. Quando compramos todos os eletro-eletrônicos (que definitivamente nos “fazem falta”) ou qualquer outra porcaria barata “Made in China”, também já sabemos por que são feitos tão longe e por que custam tão pouco. O impressionante é que, mesmo sabendo de todo o processo de fabricação até chegar as nossas mãos, dificilmente temos algum peso na consciência ao comprar-los ou fizemos algum tipo de boicote aos produtos chineses. É a aplicação prática do velho ditado que diz que “o que os olhos não vêem o coração não sente”.

Às vezes penso que a raça humana já não tem mais solução.

Publicado em: Amigos de Pelotas

Categories: Sua parte

9 comentários

  1. K∂riиє* Smith. says:

    Outro dia falei do trabalho escravo na Tailândia que alimenta nosso consumismo com roupas baratas e de baixa qualidade, conseguida as custas de gente muito humilde sem muita saída e opção de sustento que não seja se submeter a péssimas condições que essas multinacionais os oferece.

    Um absurdo mesmo, eu procuro fazer a minha parte e não alimento esse comércio, pelo menos quando eu tenho certeza de que o serviço escravo é o que alavanca a produção.

    O mundo está perdido, e cada dia mais barato.

  2. Mirelle Siqueira says:

    Acho um absurdo tudo o que acontece na China, mas a culpa não é dos consumidores não. Eh do sistema deles que não funciona direito. Talvez se essas empresas que exportam não existissem, eles nem emprego teriam, ja que nao cabe mais gente naquele pais!!! O problema esta no abuso dos empregadores, na "oferta e procura" pela mao de obra, hoje tao desequilibrada. Se fossemos seguir seu raciocinio, não consumiriamos quase nada que nao sai da europa, ja que em outros paises as condiçoes de trabalho sao geralmente pessimas. No Brasil mesmo, é justo que uma domestica que trabalha 8h por dia limpando a sujeira dos outros ganhe 300 reais por mes e viva com isso? Não. Mas todo mundo tem pelo menos uma diarista…

    Bom, eu nao tenho Ipod, Ipad, I nenhum. Mas acho bem mais facil jogar a culpa na cabecinha dos consumidores que arrumar o caos onde ele começa…. assim não vale.

    beijos!

  3. Glenda Dimuro says:

    Mirelle, o sistema existe, fazemos parte dele e obviamente, o alimentamos. A questão não é "culpar" ninguém, é simplesmente tentar buscar alternativas. Assumir a realidade e não contribuir em nada para mudar, na minha opinião, é egoismo e acomodação.
    Colocar a "culpa" no sistema "deles" é não querer ver uma realidade super complexa. Não vou discursar aqui sobre as alternativas ao atual sistema econômico chinês, que poderia basear-se em tantas outras coisas que alimentar o capitalismo e consumismo mundial…

    Uma empregada doméstica, pelo menos todas que eu conheço, não ganha só 300 reais, tem uma jornada de trabalho curta e não é quase uma escrava. As desigualdades sociais existem, é fato. Tanto é verdade que um promotor no Brasil ganha 10 vezes mais que eu como arquiteta.

    Não posso mudar o mundo sozinha, mas posso tentar fazer a minha parte e consumir o menos possível produtos que eu SEI que são fabricados as custas de mão de obra quase escrava. Conheço muita gente que pratica o "consumo responsável" e vejo que é bastante dificil, mas não impossível. É dificil porque vivemos nesste sistema, nesta bolha que sabe a realidade mas finge não querer ver, que sempre acha que é mais fácil culpar os outros do que cuidar dos seus próprios atos.

  4. Luiz Peter says:

    Formas contemporâneas de escravidão, situação pontual, sinal dos "tempos modernos". hahaha
    Consumismo, capitalismo, etc. Já pensou com toda a tecnologia desenvolvida até agora se a humanidade voltasse a viver como viviam os 'PRIMITIVOS"? pensassem simplesmente em viver… tenho certeza que seríamos mais felizes. O problema da humanidade iniciou quando algum FDP inventou o dinheiro…

  5. Luiz Peter says:

    SOLUÇÃO (???) minha tese: se na natureza o homem encontra ou descobre ou se oferece tudo de graça porque os "sabidos" não poderiam oferecer a todos os outros as coisas também de graça…(???) hahaha

  6. Luiz Peter says:

    O problema se cria quando alguém que "sabe mais" se apropria desse saber para ganhar dinheiro – o grande mal …

  7. Mari says:

    É uma questão difícil.É um sistema com faca de dois gumes. A questão de não comprar produtos de empresas já mt poderosas,e protestar, pode ajudar os" grandes" a tentarem consertar o erro… É mt difícil atingir um objetivo que faça diferença desse jeito. A idéia do consumo responsável, como outras idéias que surgem para o melhoramento da nossa sociedade, começam com pequena força mas podem fortalecer com a propagação dela. O que vc ta fazendo é mt importante.

  8. Leandro Wirz says:

    Cara Glenda, ela nunca teve solução.

  9. Oscar says:

    Otimo texto glenda!!
    Gracas ao "trabalho escravo" em paises como a china e outros do sudeste da asia e que temos a nossa sede de consumo saciada. e a inflacao no primeiro mundo controlada.

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Glenda Dimuro