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Glenda DiMuro On July - 12 - 2010

Hoje a Espanha acordou de ressaca. Não é para menos, estão no topo do futebol mundial pela primeira vez na história.O tal “Pulpo Paul” desta vez acertou. Há dois anos, quando a vidência do inglês – naturalizado alemão – ficou conhecida pelos holofotes, Paul previu que a Alemanha ganharia a final da Eurocopa 2008. Errou, e desde então a seleção espanhola, antes desacreditada por sempre amarelar ou nunca passar das quartas, vinha ganhando forças e conquistando a sua torcida.

Podemos! Este era o grito difundido pelos principais meios de comunicação. Sim, podemos! Somos campeões da Europa e podemos, finalmente, ser os maiores do mundo! Este era o espírito tanto da seleção quanto dos mais de 40 milhões que lhes apoiavam.

Confesso que tanto otimismo me dava repugnância. Como assim? A Roja não tem nenhum defeitinho? Alguma falha na defesa? Um meio de campo que às vezes se desestabiliza? Não falta um atacante decisivo? Nada. Não falta nada. Para a torcida, e principalmente para a mídia, estava tudo ótimo e perfeito. Casillas o melhor goleiro, Puyol e Piqué responsáveis pela super defesa, Iniesta, Xavi, Xabi, Ramos, Villa (Maravilla) e até o centroavante Torres (que não fez nenhum gol em toda a Copa) eram idolatrados. Bola fora era aplaudida como um “quase” gol e nem a derrota na estréia conseguiu desbancar o entusiasmo e a esperança – mesmo lidando com a estatística de que nenhum time que perdeu o primeiro jogo num campeonato mundial conseguiu levar a taça para casa. Estavam todos cegos, que triste me parecia a ignorância.

Tanta positividade me irritava. Enquanto a maioria dos compatriotas esperava ansiosamente por um encontro Brasil&Espanha, eu queria mesmo é que toda essa “puxação de saco” acabasse logo, que a humildade reinasse e que a Espanha se colocasse no seu lugar, ou seja, do lado dos perdedores natos. Podia ser TPM ou um excesso de irritação desnecessária, mas era assim que eu me sentia cada vez que ia ver uma partida e tinha que torcer (contra) por dentro.

Poucos sabem o que significa torcer por dentro e conseguir esconder as emoções. Ou querer gostar de alguém só porque ela gosta da gente. Eu me sentia um bicho estranho por não vibrar por este país que, bem ou mal, me acolhe. Até que uma amiga francesa, que mora há anos em Sevilla, compartiu um pequeno segredo comigo. Falou no meu ouvido durante o jogo contra o Paraguay: eu não consigo torcer pelos espanhóis. Ufa! Parece que enfim eu não estava sozinha num mundo vermelho e amarelo.

Depois do fracasso da nossa seleção, juro que tentei apoiar a Furia. Até pintar a cara com a bandeira eu pintei, mas no fundo rondava um sentimento misto de inveja e outra(s) coisa(s) que não sei explicar. Para mim estava claro que a Espanha teve sorte de pegar um grupo relativamente fácil e logo encarar times mais fracos nas fases eliminatórias. Mas da Alemanha que já tinha feito 4 na favorita Argentina, dessa sim eles não passariam.

E passaram. E já quando não tinha mais volta e os espanhóis estavam mesmo na final de um campeonato mundial de futebol, fui vencida. Coloquei um vestido vermelho vivo e assumi que, definitivamente, eles são os melhores do mundo. Mesmo sem fazer muitos gols, era um bom time, e mesmo que perdessem o jogo, já eram vencedores. Venceram com o apoio de toda uma nação que não duvidou em nenhum momento da capacidade dos seus jogadores. Estavam todos unidos, eram todos positivos. E chegaram à final, e venceram. Fiquei feliz. A irritação foi substituída pela admiração.

Por aqui não se diz que “Deus é espanhol” e nem se atribui os êxitos a questões divinas. É verdade que hoje a Espanha enfrenta diversos problemas econômicos, políticos e sociais: uma das maiores taxas de desemprego de toda a Europa; a Cataluña quer porque quer aprovar um tal de Estatuto que lhe dê maior autonomia; greves e mais greves de vários setores; por citar algumas das “crises”. Deus bem que pode ter dado uma mãozinha para aliviar as suas dores cotidianas, como faz bastante com os brasileiros.

Mas o dia 11 de julho de 2010 foi histórico para este país e fico orgulhosa de estar fazendo parte desta festa. A Espanha hoje acordou de ressaca. E dou o braço a torcer, uma ressaca merecida. E eu consegui me livrar dos sentimentos ruins que vinha acumulando, abrindo um espaço no meu coração que hoje está verde, amarelo e vermelho!

Categories: Espanha

3 comentários

  1. Mile says:

    Me vi "reflejada" neste post. Sabe que passei a copa inteira querendo(por dentro) que a Espanha perdesse? Nao me pergunte o porque que eu nao sei, mas algo dentro de mim me impedia querer a vitória espanhola. Esse sentimento ruim(sim, porque como posso querer que perca um pais que me acolheu bem e sendo meu marido espanhol?) mudou a partir do jogo da alemanha, torci e quis que ganhasse com todas as forças como se fosse o Brasil jogando. Vai entender esta minha cabeça…

  2. Mirelle Siqueira says:

    viu so glenda? devia ter acreditado e comprado a TV da promoçao, sairia de graça! Eu gostei da vitoria da Espanha, jogaram bonito demais!!

    beijos

  3. mateussz says:

    Baita artigo!
    Parabéns dimuro!!

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Glenda Dimuro