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Glenda DiMuro On August - 26 - 2010

Uma das tantas coisas que me chamou a atenção quando cheguei na Espanha foram as agendas. Sim, agenda, aquela espécie de caderninho onde antigamente anotávamos os telefones das pessoas, endereços, compromissos, preenchíamos a primeira página com o grupo sanguíneo e um número de alguém importante (e atinado) para contatar em caso de emergência.

Nunca fui o tipo de mulher que não vive sem agenda, mas sempre gostei de ter uma por perto. As preferências mudavam a cada temporada: já amei e detestei agenda de espiral, grande, pequena, com folhas coloridas, de papel ecológico, com fotos de animais em extinção, com desenhos de artistas desconhecidos… Mas eu sempre adorei aquelas que vinham com uma frase ou um poema em cada dia. Bons tempos de adolescência quando a gente enchia a dita de recadinhos, papeizinhos e clips, muitos clips coloridos (quando mais gorda melhor, quem tinha 15 anos nos anos 90 certamente lembra-se disso, não me (se) enganem).

Hoje em dia, com as “maravilhas” internéticas, acabo anotando todos meus compromissos em meios virtuais que me enviam mensagens dias ou horas antes do evento. E as tais mensagens diárias de perseverança, tão poéticas e românticas, acabaram virando a “sorte de hoje” do Orkut.

Mas em janeiro de 2006 eu estava com vontade de comprar uma agenda, dessas de toda a vida.

Fiquei cho-ca-da quando descobri que por estes lados a agenda não começa junto com a ano novo, ou seja, dia 1º de janeiro, mas sim em setembro! Isso mesmo, a maioria das agendas, calendários e tudo mais aqui na Espanha começam em setembro!

Aquela história de ano novo, agenda nova, não existe. Bom, pelo menos a concepção de ano novo é um pouco diferente. Como o ano letivo começa depois das férias de verão, ou seja, em setembro, as tais agendas acompanham estas datas. Já não está escrito na capa Agenda 2010, mas Agenda 2009-2010 ou 2010-2011 e por ai vai… E o mais engraçado é que as pessoas na Universidade, quando voltam das férias de agosto, se referem ao primeiro semestre de 2010 como no “ano passado”!

Juro que custei um pouco a mudar o chip. Quando alguém em 2006 me falava do ano passado sempre me vinha à cabeça 2005. Complicado.

Naquele ano, fiquei sem agenda. Todo mundo sabe que agenda se compra em dezembro e se estréia em janeiro. Agenda é o típico presente de amigo secreto de fim de ano, ou de Natal, de um parente que não conhece muito seus gostos. E comprar agenda depois dessa data significa ficar a mercê dos restos, daquelas agendas feias (estilo pé de página picoteado e capa de couro “a la secretária de médico”, se é que você me entende).

Traduzindo, comprar uma agenda na Espanha em janeiro é diminuir em 80% a possibilidade de encontrar uma que se adapte às suas exigências do momento. E também significa começar o ano novo com muitas páginas em branco, e pior, páginas da vida que já passaram, que não podem voltar a ser escritas, dias que já não podem mais ser vividos.

Depois disso, já não me interessei por elas. Até ganhei algumas do meu avô, dessas que as empresas dão no final do ano para fazer propaganda, e acabei percebendo que se sou capaz de usar uma agenda dessas, e porque tudo perdeu o encanto. Nunca mais vai ser a mesma coisa…

Assim que todas as minhas agendas recentes acabaram virando caderno de rascunho. Antes de ir ao supermercado escolho um dia dos anos passados ao azar e escrevo a minha lista. É uma terapia, pois fico imaginando: o que eu estava fazendo naquele 23 de julho de 2007? Um dia em branco em mais uma agenda perdida… uma agenda vazia, que perdeu espaço para o meu calendário do Google.

Mas enfim, é a vida. E como não poderia faltar, a dica de hoje é essa: se você vem para a Espanha e ainda é uma desses bichos raros que escrevem seus compromissos em folhas de papel, lembre-se de comprar uma agenda em agosto/setembro. Ou mande a sua mãe lhe mandar uma de presente de Natal.

Categories: Cotidiano, Espanha

5 comentários

  1. Tenho uma espécie de diário no qual anoto, em letras bem pequenas, um resumo de minhas atividades diárias. Sempre gostei de escrever sobre aquilo que eu faço, mas o tal “caderninho verde” só começou mesmo em 2005. Já estou no segundo. Portanto, em janeiro do ano que vem, se você encontrar nas ruas de Sevilha um rapaz de óculos anotando algo num caderno verde, tenha certeza de que essa pessoa serei eu.

  2. Renilse says:

    Eu sempre ameiiii agendas!! Na adolescencia tive muitas e agora não vivo sem, como sou professora e trabalho em 3 escolas fica impossível nao anotar os compromissos. Sem contar que tenho uma agenda especial para as finanças e projetos pessoais. Sou das antigas e uso as agendas de papel mesmo. Quando estive na Espanha em janeiro comprei a revista Elle e ganhei uma agendinha lindaa. Tive sorte!! Vou garantir a minha para o ano que vem.. Obrigada pela dica!! Um abraço!!

  3. Karol says:

    Nossa, adorei esse post! Muito interessante essa diferença. Deve ser estranho de fato se referir ao ano atual como passado. kakaka Mais um aprendizado. Parabéns!

  4. Sandra says:

    Nossa Glenda, já abandonei a agenda há muitos anos. Eu vivia perdendo, deixando em todos os cantos. Agora anoto tudo no celular, é mais prático e como vcs disse, avisa umas horinhas antes e não tem risco de esquecer! Já não perco o aniversário de ninguém. Parabéns pelo blog. bj

  5. Regina Brandão says:

    Oi Glenda,
    descobri o seu blog por acaso, mas amei e já adicionei aos favoritos. Fazia tempo que buscava um blog assim…PARABÉNS!!!
    Irei em outubro a Salamanca para fazer um curso de espanhol (curso de otoño) duração de 3 meses, enfim não é graduação e muito menos pós, porém fui orientada a procurar a embaixada brasileira na Espanha para que eles carimbem o meu certificado para dar mas credibilidade ao curso.
    Você, por acaso, sabe alguma coisa a respeito?
    Pode me enviar um email se achar mais fácil

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Glenda Dimuro