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Glenda DiMuro On October - 17 - 2010

Isso lá na Europa é muito diferente. A Europa é muito legal. Na Europa tem inverno, aliás, na Europa existem todas as estações. Ah, a Europa! Vai se apresentar na Europa. Chegou da Europa esta semana. Lá na Europa é outra realidade. É bem mais caro na Europa. Na Europa tudo é melhor. Na Europa isso é artigo de luxo. Na Europa é necessário. Aliás, na Europa isso é muito normal. É mais ou menos assim lá na Europa. Até na Europa rola isso, embora aquilo lá na Europa não se use mais. Está atualmente na Europa. Vai chegar da Europa. A viagem a Europa foi ótima. A Europa é pequena. Que grande é a Europa! Vai todo ano a Europa. Vive na Europa. Estudou na Europa. Trabalha na Europa. Sonha em morar na Europa. Está na Europa. Não sabe se algum dia voltará da Europa .

*

Minha ideia de Europa não combina muito com estas aí de cima. Não vivo neste “lugar” e nem acredito nesta falsa unidade continental. É perigosa esta generalização que insistimos em repetir, porque assim é sempre mais fácil entender um problema. Este conjunto de diferenças, muitas vezes intransponíveis, chamado Europa não cabe em uma única palavra mágica, sedutora e pseudo integradora. “Europa”. Europa como um lugar que se visita em 15 dias, como um cartão postal multifacetado, como o “lugar”, como um mercado único ou como um ideal de civilização? Há uma saudade de alguma coisa que nunca foi unidade inconfundível, única. Europa não é Europa no singular: são Europas.

O que existe é difícil de explicar usando poucas palavras, com apenas uma não se define nada. Europa como um amontoado de línguas que não posso falar, de culturas que desconheço, de identidades secretas, de grandes problemas, de muitas qualidades e de inúmeras falsidades. Europa das capitais cosmopolitas e das capitais provincianas. Europa das pequenas cidades, das cidades medianas e das cidades abandonadas no esquecimento. A Europa da história, da não-história, da invenção. Europa das cidades costeiras e das cidades interioranas. Europa das planícies e das montanhas. A Europa de inúmeras entradas e saídas. A Europa da imigração, do sonho ou da fuga, da vitória ou da decepção. Europa como um mercado que aos poucos começa a dialogar: pessoas, serviços e mercadorias dos muitos países que compõem a Europa do mercado europeu.

Aqui do lado de cima do Equador, nesta Europa que vejo no mapa, há tantas coisas que não consigo abarcar. Fecho os olhos e penso em cidades, línguas, culturas. Vejo diferenças, macro e microcosmos, paralelas que jamais se cruzam. A Europa como um todo não existe fora da cartografia literal. Ou melhor, só existe  num sentido geográfico amplo, que vai mais além dos mapas: quando se estuda geografia, se vê isso: vemos como o território é percorrido e nos damos conta de que há uma série de “meias-verdades” ou — a palavra desagradável – mentiras, que constituem o arcabouço que conduz o mundo, disse Milton Santos.

É continente de inúmeras identidades. É conjunto de diferenças. Na Europa não há proximidades, há ilusão, não se vê nada em 15 dias, pulando-se de galho em galho.

Não, a Europa não é uma palavra que possa ser usada para conter tudo. Prefiro falar em países, culturas, fronteiras, línguas, territórios, de todos, de complexos, de corpos que apenas se roçam em falsa proximidade. É pouco, muito pouco o que sei da Europa.

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Europeu: aquele que tem a nostalgia da Europa, disse Milan Kundera. Americano, do Norte ou do Sul: aquele que acredita na existência da Europa, digo eu, bem baixinho.

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Este texto foi escrito pela Anlene Gomes, que mora na Espanha há bastante tempo. Tempo suficiente para escrever tão sabiamente – e de forma tão natural – sobre as diversidades que encontramos no velho mundo. Faço dela minhas palavras, não existe uma só Europa, mas sim várias Europas dentro de uma só. Visitem seu blog DMadrid, vale muito a pena.

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Categories: Europa

8 comentários

  1. Anita says:

    Glenda, o carater principal da Europa e’ a sua diversidade. Unidade na diversidade. Para os gregos antigos era toda e qualquer regiao que estivesse a oeste do rio “Eu” – ao diabos com a localizacao desse riacho ou se e’ que tenha existido mesmo. Eu prefio falar na Europa do Norte, Europa Central, Sul da Europa, Europa do Leste – todas as areas com delimitacoes bem fluidas.

  2. Faltam 79 dias para eu conhecer a Europa e mesmo assim já tenho uma boa noção de que a Europa – inclusive a União Européia – não é um continente unido e igualmente próspero, mas uma verdadeira Torre de Babel. Só o Reino Unido tem pelo menos três idiomas oficiais (inglês, galês e gaélico/irlandês), a Espanha, então, tem quatro (espanhol, catalão, galego e basco). E a Itália, então, tem o italiano, ensinado nas escolas, e mais uma renca de dialetos locais. Se levarmos em conta também as diferenças geográficas, históricas e principalmente sociais, a diversidade chega a assustar.
    Creio que a Eurocopa, prevista para ocorrer na Espanha em 2011 e que os fanáticos por futebol no Velho Continente consideram até mais importante que a Copa do Mundo, é o melhor retrato de tal diversidade. Todas as paixões, detalhes culturais e até preconceitos (muitos deles já duram vários séculos) afloram nesse evento. A própria final do Mundial deste ano é um retrato da divisão existente em cada país europeu, pois logo após levantarem a Taça Fifa vários jogadores faziam a volta olímpica enrolados nas bandeiras de comunidades autônomas como a Catalunha (que ainda dará muito trabalho ao governo central de Madrid) e o Principado de Astúrias…
    E Sevilha? Na semana passada, por meio duma reportagem a respeito dos ciganos produzida pela Euronews, descobri que existe até uma FAVELA chamada Vacie. Fiquei boquiaberto! Espero que eu tenha a oportunidade de conhecer o povo do Vacie, pois me parece muito carente não apenas socialmente, mas espiritualmente também.

    • Corrigindo: a próxima Eurocopa ocorrerá em 2012 na Polônia e na Ucrânia. E em 2016 será realizada na França.
      Lembrei-me disso após assistir uma gravação em VHS (!!!) da vitória da Grécia sobre Portugal na casa do adversário, na edição de 2004 de tal campeonato. Na Eurocopa de 2008, realizada na Áustria e na Suíça, a Espanha venceu a Alemanha.
      Falha nossa…

  3. Eve says:

    Oi Glenda, coloquei o link lá no post. Texto bem bacana para agregar ao que eu escrevi.
    Obrigada! 😉

    Bjs!

  4. anlene says:

    Glenda, obrigada por divulgar aqui este texto e pelos elogios ao meu blog. Aliás, o seu está lindo e cada vez melhor! Beijos

  5. Millena says:

    Glenda, depois que eu conheci a Bélgica e suas duas línguas, dois povos, duas cores, duas culturas, duas culinárias, duas personalidades, duas caractarísticas, passei a compreender um pouco mais que Europa é um nome muito abstrato, formado por milhares de culturas muito concretas. As vezes divididas por uma montanha, um rio ou uma rua. Na sua Espanha também vi mundos bem diversos, e olha que só conheci Barcelona e Madri. Dizer fui pra Espanha e conheci a Espanha é estranho…conheci madrilenhos e catalãos, duas personalidades tão, mas tão diferentes, que poderiam ser marcianos e terráqueos. Isso tudo me fascina imensamente. Por isso amo essa “Europa” de mil cores, e quero conhecer muito mais, pra sempre.
    Beijo!

  6. Luiz Peter says:

    grego, EUR=ampla OPA=vista,olho EUROPA=VISTA AMPLA Fator primordial para opinar sobre outros povos é compreender e falar seus idiomas. Todo o resto são suposições e impressões que manifestamos…

  7. Marisa Almeida says:

    Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Dinamarca, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia,Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Roménia, Suécia e em Fase de Adesao a Croacia.
    Sou Portuguesa, Enga Civil e encontro-me a residir na Alemanha, aqui conheco pessoas dos varios paises acima mencionados (com maior destaque à Holanda, Polonia, Grecia, Hungria, Espanha, Irlanda,Roménia, entre outros). Como Portuguesa nao sinto grande diferenca cultural a nao ser pela alimentacao, lingua e talvez na Religiao. Parece-me claro que relativamente a Paises como exemplo a Romenia, Bulgaria, Estonia, Polonia, Chipre se note um pouco mais devido a tratar-se de Paises muito pobres com a politica implementada do “salve-se quem puder”. Portugal tb esta a aderir a essa politica, é muito triste… mas isso era outro tema..

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Glenda Dimuro