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Glenda DiMuro On October - 11 - 2010

Eu sei que este blog deveria falar sobre dicas de viagem, conselhos para quem vai morar no exterior, estudar em uma universidade na Espanha e mais um monte de coisas legais e divertidas. Mas também sei que grande parte dos meus leitores são expatriados e expatriadas neste mundão afora e estão longe, bem longe de tudo que está acontecendo no nosso Brasil brasileiro. Queria trazer só boas notícias desta minha viagem, mas parece que isso ainda pode demorar um pouquinho.

Olhem só a manchete que saiu no El País de hoje: “Los candidatos brasileños llenan el debate televisado de trapos sucios”.

Traduzindo, a notícia internacional sobre a política brasileira é de que Serra e Dilma estão lavando roupa suja em horário eleitoral.

Os Tiriricas & cia da vida saíram de cena e agora a baixaria parece que ficou por conta dos aspirantes a presidente do Brasil.

Quem está pelas bandas de cá já sabe que os temas em discussão são aqueles tradicionais: privatizações, robalheiras, corrupções… Mas tem um ponto alto que anda tomando conta do debate: o aborto.

Dilma disse, quando ainda não havia arrancado a disputa eleitoral, que era contra. Depois voltou atrás e disse que não. E virou uma beata católica. Serra aproveitou o deslize da senhora e voltou a sua campanha para a vida, dizendo que vai ajudar as mulheres grávidas e o escambau.

É cômico, para não dizer triste, ver o horário eleitoral recheado de agressões mutuas. Mas isso não é o pior, a maneira como estão levando um tema tão sério como a descriminalização do aborto é que mais me causa espanto.

Dia 26/07/10 escrevi um artigo sobre até quando o aborto seria uma tema tabu. Citei as declarações da Dilma e ainda sugeri que ela perderia alguns votos. Só não imaginava que iriam trazer o assunto a tona dessa forma e que renderia tanto pano para manga.

É uma grande pena que o aborto esteja sendo abordado como uma questão “eleitoreira”. Até capa da Veja virou esta semana, numa campanha descarada contra Dilma (necessito um parênteses, a própria Veja, em 1997, fez uma reportagem com várias famosas que confessaram que haviam praticando algum aborto, entre elas Hebe Camargo, Cissa Guimarães, Soninha, Elba Ramalho. Veja a edição digital aqui). Um tal de disse me disse e uma hipocrisia desgraçada.

Enquanto nos países mais desenvolvidos o tema é tratado com seriedade, aqui serve para ganhar votos e agradar possíveis maiorias eleitorais, obviamente religiosas. Num país dito como laico, a questão não é a opinião pessoal de uma pessoa, neste caso um candidato à presidência, o que vale. Vai muito mais além…

Obviamente não é uma coisa fácil de se falar, decidir, aprovar leis. São muitos pontos a considerar, mas a questão é debater, deliberar. Nos países onde as mulheres que desejam praticar o aborto são amparadas por lei, a questão também não foi fácil. Nada é preto no branco.

Mas utilizar esta questão como tema central na reta final das eleições é golpe baixo e demonstra que ainda falta muita caminhada para o Brasil ser uma país desenvolvido e ir para frente de verdade.

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Aproveito o espaço e deixo na íntegra minha opinião sobre o aborto, publicada no Jornal Amigos de Pelotas :

Aborto: tabu até quando?

Dia desses a candidata à presidência, Dilma, tocou num tema tabu no Brasil. Falou que o aborto é questão de saúde pública, uma declaração que, obviamente, causou certo furor sobre os religiosos do país. Não demorou muito para que um bispo católico recomendasse o boicote à sua candidatura, simplesmente por ela defender publicamente o aborto nos casos permitidos por lei – estupro e risco de morte para a mãe. Depois disso, já saiu até boato dizendo que se caso Dilma for eleita, assim como na hermana Argentina, no Brasil vai ser permitido o casamento homossexual.

Aborto e homossexualismo são temas complicados e polêmicos. Numa sociedade ainda machista e “pseudo” católica como a nossa – e digo pseudo porque estou cansada de ouvir gente dizendo que é católico, mas “não praticante” (e também podem entrar aqui todos aqueles e aquelas que vão à missa, comungam, mas “esquecem” de cumprir o tal sexto mandamento e outros mais), falar abertamente sobre estes assuntos é praticamente um tabu.

A sinceridade da candidata pode lhe custar alguns votos, pois mesmo vivendo num país que se diz democrático e com um governo supostamente laico (ou seja, independente das leis de qualquer religião), sempre que alguém resolve trazer o debate sobre o aborto à tona, ocorrem manifestações movidas por convicções religiosas e morais, que abafam qualquer possibilidade de discussão.

Enquanto a sociedade finge que o problema não existe, a cada ano são praticados milhares de abortos ilegais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, anualmente ocorre uma média de 87 milhões de casos de gravidez indesejada no mundo, sendo que a metade das mulheres recorre ao abordo induzido e 68 mil morrem em decorrência de abortos realizados sem condições de segurança.

No Brasil, a OMS estima que 31% dos casos de gravidez terminam em abortos e são milhares os casos de internações no SUS motivadas por curetagens pós-aborto, decorrentes de procedimentos mal feitos e sem condições de higiene.

Os números são bastante altos e refletem uma realidade do nosso cotidiano. Milhares de mulheres, ricas ou pobres, brancas ou negras, e me arrisco a dizer católicas (do lado das não praticantes?) ou não, interrompem gestações indesejadas todos os dias.

Em todos os casos, mesmo pondo em risco a própria vida, a decisão de não ter um filho é o que as une e fala mais alto, com lei ou sem lei.

A única coisa que diferenciam ricas e pobres é o como: as primeiras procuram clínicas clandestinas (muitas vezes de luxo) e as segundas, sem dinheiro para pagar um procedimento seguro, utilizam métodos tão horríveis como os realizados com agulhas de tricô.

Em muitos países mais desenvolvidos o aborto é legal ou está em vias de se tornar. Diante de uma realidade que existe há séculos, os governos (também laicos, por certo) optaram por permitir o acesso igualitário e não discriminatório a procedimentos seguros àquelas mulheres que simplesmente não querem prosseguir com uma gravidez.

Por exemplo, este ano na Espanha foi aprovada a Lei Orgânica de saúde sexual e reprodutiva e da interrupção voluntária da gravidez que descriminaliza a prática do aborto induzido em todo e qualquer caso antes das primeiras 14 semanas de gravidez.

Durante este tempo, a mulher poderá tomar uma decisão livre e se desejar, pode pedir conselhos médicos e psicológicos gratuitamente. A lei ainda não entrou em vigor, mas já tem um ponto que está causando mais polêmica que os demais: o que fazer com as grávidas menores de 16 anos, que precisam do consentimento dos pais? Ninguém sabe ao certo, mas o debate continua.

Infelizmente no Brasil, o aborto parece que está longe de ser um tema “debatível”. A hipocrisia e o falso moralismo da nossa sociedade acabam por bloquear uma discussão coletiva que há anos já deveria ter começado.

Concordo que os grupos religiosos sejam contra o aborto. Mas também não podemos esquecer que existe outra metade da população que não é crente e precisa ser respeitada e ouvida.

Não podemos taxas aquelas mulheres que praticam um aborto de assassinas. Afinal de contas, até hoje ninguém chegou a nenhuma conclusão sobre quando um feto deixa de ser um ser vivo (como uma célula qualquer) e passa a ser um ser vivo e humano.

Vários científicos afirmam que antes de se formar o sistema nervoso central – que ocorre mais ou menos nas 23 semanas de concepção da criatura – não existem estas tais conexões nervosas ou nenhum tipo de sensação “humana”.

Os crentes que me desculpem, mas estou de acordo com a Dilma: a questão do aborto vai muito mais além das opções religiosas e depende dos princípios morais e éticos de cada uma. Já está na hora de este tipo de debate começar a ser levado a sério no Brasil. Parece que ninguém vê mal nenhum em tomar a pílula do dia seguinte, fazer inseminação artificial ou in vitro (de fato, conheço a vários casais super católicos que diante da impossibilidade de terem filhos pelas vias naturais, recorreram a este método de fecundação).

A legalização do aborto não obriga ninguém a abortar. O contrário, a sua criminalização, é que condena muitas mulheres a morrer. E antes que me crucifiquem e me acusem de apoiar futuros “assassinatos”, declaro que sou contra o aborto, nunca fiz e nem pretendo nunca fazer. Mas é uma decisão minha, sobre meu corpo, sobre meu futuro e sobre o destino de minha própria vida.

Ninguém tem o direito de decidir por mim e eu tenho o direito que a minha posição seja amparada por lei, pois não sou nenhuma criminosa. Chega de tapar o sol com a peneira. Deixemos já de tanta hipocrisia e vamos cuidar de questões que, acima de tudo; são de saúde pública.

Categories: Brasil

11 comentários

  1. Eli says:

    oi Glenda!
    quando vi a capa da veja, lembrei do teu artigo para o Amigos.
    na real, o aborto aqui na Espanha também é uma questão eleitoreira, o debate político é que mantém a certa istância o populismo desbocado.
    o que entristece é o circo político que impera no Brasil.
    impossível chegar a ser uma democracia séria com voto obrigatório, vira isso, o show do populismo com Tiririca sendo eleito, lavação de roupa suja por candidatos a presidência, cargo político virando “plano de aposentadoria” de jogador de futebol…
    triste o panorama.

  2. Anita says:

    Na revista Epoca ha varios colunistas falando sobre essa questao. As brasileiras pobres morrem a rodo devido a pratica de aborto. E esses candidatos viram a casaca toda hora. Ai, ai, religiao e igrejentos se metendo em tudo nao da.

  3. Ernani says:

    Essa revista me envergonha da minha profissão. Muito triste saber que ‘colegas’ se prestam a esse tipo de trabalho sujo. Mais triste ainda é saber que há muitos outros em vários diferentes jornais e tvs fazendo o mesmo. E… olhar com profundidade para a política do nosso país é de partir o coração. Por isso não dá vontade nenhuma de voltar a morar no Brasil…

  4. Luiz Alberto Peter says:

    Glenda: vivo em Pedro Osório há quase 30 anos e já fiz inúmeros testes de gravidez, obviamente muitos positivos; pelo tamanho da cidade e pela minha memória, digo que depois de poucos meses vi muitas barrigas crescerem, a maioria, porém outras pude ver que não se desenvolveram…(???). aqui é uma cidade de gente “monetariamente desprovida” mas, essa história de que “muita gente” morre porque fez aborto é falácia. Até me arrisco a dizer que: mulheres tomam a providência de abortar mas “poucas – muito poucas) morrem em consequência dessa decisão. É com pesar que assisto debates políticos com agenda negativa quando o Brasil com o potencial de riquezas disponíveis certamente terá um futuro melhor. Para isso basta ações de agentes que não deixem o país sair dos trilhos…Nessa altura do campeonato não podemos deixar a peteca cair… tem muita agente apostando que ela caia, simplesmente interessadas no dinheiro, o mal maior…

  5. Luciana Gusmão says:

    Oi, eu concordo com tudo que você falou, mas gostaria de complementar dando nomes aos bois para que a discussão atinja a profundidade que merece. A questão do aborto não é tão trivial quanto se pensa, não pela questão em si, que considero de saúde pública e não de cunho pessoal, mas pelas forças extremamente conservadoras e retrógradas que o assunto resgata. Isso não acontece apenas no Brasil, mas em outros lugares “mais desenvolvidos”, como, por exemplo, os EUA. Cito os EUA porque é algo que vivi, pois morei lá (ainda moro até dezembro) por o 6 anos, incluindo-se aí a eleição de Obama. Aqui, a questão do aborto como “pró-vida” é extremamente explorado. Não que os EUA seja usado como parâmetro de bom-senso, mas mostra que o grau de desenvolvimento de um país não tem relação direta com a questão do aborto. O aborto foi trazido à essas eleições pela direita (leia-se SERRA) em uma tentativa desesperada de reverter os resultados dessas eleições. É importante, no entanto, que nós que vemos o que está acontecendo, mudemos o rumo da prosa pra aquilo que realmente importa: os dois modelos de Brasil que estão em jogo. O primeiro entreguista e atrasado que o Serra apresenta que é diametralmente oposto ao que Dilma representa. Dilma representa o brasil soberano em todas as áreas e em toda sua extensão, o Brasil onde que desponta no cenário mundial como grande líder, não por motivos isolados, mas por ter colocado o povo pela primeira vez em primeiro lugar. Isso é o que está em jogo.

    Entendo aqueles que moram fora do Brasil e se indignam com o que ocorre lá, afinal indignar-se é a última coisa que podem tirar do ser humano. Porém essa indignação só será benéfica se for essa energia for usad contra os motivos que causam tal indignação.

    Aos que ‘perderam a fé e a vontade de morar no Brasil’digo que o tempo em que nos damos conta que de que estamos todos no mesmo barco chega. Chegou para mim e chegará para você. Estou com o Brasil até debaixo d’água e acredito piamente que iremos muito além.

    Beijos,
    Luciana

    • Marina says:

      \o/

      Mas os EUA são diferentes dos outros países desenvolvidos por ser um país ainda fortemente cristão. Esse não seria um problema se as massas (do mundo todo) conseguissem separar religião de saúde pública e escolha pessoal. Não conseguir, porém, parece ser uma questão intrínseca a ser religioso. Não tenho religião, mas mesmo quando tinha, era a favor da legalização do aborto. Não é porque eu acredito que o aborto seja errado, que tenho o direito de impor a minha opinião aos outros. Isso sem mencionar que o aborto sempre aconteceu e sempre acontecerá independentemente de ser legal ou não. A diferença é que quem pode pagar 10.000 para abortar paga, e quem não tem o dinheiro vai em um açougueiro qualquer para ter trabalho feito.
      Não adianta, para a grande maioria, ser religioso implica acreditar que somente a sua opinião é a certa.

  6. Heraldo says:

    Bem legal essa discussao, Glenda.
    A minha opiniao é que a Veja nao deve ser tomada como uma fonte séria.
    Sobre o aborto, sou contra nao por ser católico (apesar que sou desde sempre), mas pela questao da responsabilidade que devemos ter com a vida que vamos gerar. Se a mae nao tem condicoes de cuidar da futura crianca, è preciso doá-la de alguma maneira.
    Acho que nao podemos falar “Eu sou a mae e faço o que quiser com o meu corpo e com o feto”…
    Agora, se a Ciencia encontrar um “limite” para a geracao da vida e etc, aí sim, acredito que possa haver uma interrupcao, mas lògico que è questao de poucas dias após a fecundacao.
    Bom, è isso, e que o Brasil possa um dia comecar a aprender com outros paìses como ter uma polìtica melhor!

  7. Não quero aqui dissertar longamente sobre a questão do aborto (antes que me perguntem: sou contra), pois tal discussão vai longe. Mas também concordo que usar um tema tão delicado como esse na tentativa de manter ou mudar o rumo das eleições presidenciais brasileiras é no mínimo patético. Não que a discussão sobre o aborto não seja importante (na minha opinião, ela é tão importante que mereceria até um plebiscito), mas usá-la em favor de um ou contra outro é demais. Muitos que moram fora do Brasil estão – com razão – envergonhados de sua nacionalidade por causa disso.
    Estou tão indignado com o rumo que a campanha presidencial tem tomado (o pior é que ainda teremos mais 18 dias de baixaria pela frente :P) que decidi não esquentar mais a cabeça com o assunto. Respeito a crença de cada um, mas como evangélico creio que meu papel a partir de agora é orar por meu país e por meus governantes para que Deus livre o Brasil da tirania, do autoritarismo, da intolerância religiosa, da disseminação da iniqüidade… E também para que muitas almas se entreguem para Jesus, o único capaz de solucionar os problemas daquele que o jornal espanhol El País chama de “gigante suramericano”. “E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra” (II Crônicas 7:14).

  8. Le says:

    Glenda
    Tambem achei o fim como o aborto esta sendo abordado nessa eleicao. Essa e uma questao tao complexa que nao merceia um debate tao raso. Ou seja: quem e a favor, nao presta. quem e contra, esta com Deus!O que e isso? Como se ser contra ao aborto fosse ser Pro-vida.
    Assim como o casamento homossexual tamnem nao pode ser usado como argumento eleitoreiro. Essas questoes sao tao complexas e o Brasil e tao cheio de tabus que tenho a impressao de que isso ainda vai durar muitos anos, algumas centenas. Porem, o que esperar de um pais que teve quase 400 anos de Escravidao?
    Beijos

  9. A coisa está feia… Ontem atingiram o Serra no Rio de Janeiro com um rolo de fita adesiva durante uma briga entre militantes do PT e do PSDB. O jornal espanhol “El País”, em sua versão on-line, mostra o quão baixo desceu o nível da campanha eleitoral presidencial:

    “El acto de agresión ha sido visto como indicador de una campaña electoral que según ha comentado Lula ‘está siendo una de las más sucias y violentas’ de los últimos tiempos. Mientras, los activistas de izquierdas llamaban a Serra ‘asesino’, él comentó que sus agresores ‘parecían la tropa de asalto de los nazis’.”

    Agora só falta haver quebra-quebra e empurra-empurra nos estúdios da Globo logo após o último debate entre os candidatos, previsto para o dia 29/10/2010. Ninguém merece…

  10. Marina says:

    concordo 100%. pessoalmente, eu sou contra o aborto. porém sou a favor da sua legalização. não se deve misturar as duas coisas e as crenças religiosas entrarem na discussão política foi o fim da picada.

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Glenda Dimuro