bookmark bookmark  
Glenda DiMuro On May - 19 - 2011

Suponho que a noticia sobre milhares de jovens acampados na Puerta del Sol, um dos pontos mais emblemáticos da capital espanhola, já tenha chegado ao Brasil.

Movimiento 15-M, esse é o nome do protesto que começou como (mais) uma manifestação pelas ruas das principais cidades do país no último domingo 15 de maio, organizado via redes sociais (facebook, twitter e afins) e inspirado nas revoltas europeias (Islândia) e do mundo árabe. Mas o que era mais uma passeata de protesto acabou tomando outras proporções…

Diante da proximidade das eleições municipais, depois da passeata em Madrid um grupo de pessoas (jovens em sua grande maioria) decidiu acampar na “zona zero” da cidade, e permanecer ali para expor publicamente sua indignação sobre a atual situação econômica, social e política da Espanha. “Democracia real ¡YA! No somos mercancía en manos de políticos y banqueros” é o que pedem desempregados, “mileuristas” (gente que gana mil euros ao mês, salário considerado baixíssimo para os padres europeus), donas de casa, imigrantes e cidadãos em geral.

Um dia depois, a polícia chegou e debandou todo mundo, prendendo uma dezena de ativistas. Para que? Será que não sabem que repressão é pior? Pois o protesto ganhou mais visibilidade se ampliou, tomando proporções nunca antes imaginadas. Espalhou-se por outras cidades como Barcelona, Valencia e também Sevilla, onde um grupo de pessoas já está acampado na Plaza de la Encarnación (as famosas “Setas” cuja obra de recuperação foi recém-inaugurada e é alvo de diversas críticas tanto pelo dinheiro que se gastou quando por sua qualidade estética e funcionalidade).

Plaza de la Encarnación - Setas de SevillaMas afinal, o que querem os jovens acampados – e os nem tão jovens, já que milhares de adultos de todas as idades já se somaram à causa? Argumentos não é o que faltam, ainda mais numa sociedade com mais de 20% da população ativa desempregada e uma taxa de desemprego juvenil maior de 43%. Os interesses são vários e vão desde o acesso à educação pública, passando por temas relacionados com o meio ambiente e direito a um emprego e a uma moradia digna. Mas pedem principalmente uma participação permanente na vida política (orçamentos participativos, referendos consultivos, etc), um novo modelo econômico, uma gestão pública e transparente, cultura libre… E lutam por uma democracia mais participativa e distanciada do atual bi-partidismo PSOE e PP (se auto denominan geração ni-ni: “ni PSOE, ni PP” – em alusão aos jovens ni-ni: “ni estudia ni trabaja”). “No le votes”, dizem os cartazes.

Mas nem tudo são reclamações. Existem várias propostas dentre as quais se destacam a nacionalização dos sistemas financeiros; a cobrança de mais impostos aos que ganham imensas fortunas; o controle da fraude fiscal; a inversão geradora de empregos em serviços sociais, educação e meio ambiente; a garantia de uma renda básica e o aumento do salário mínimo a mil euros.

A maioria se proclama apartidária e não estar vinculada a nenhum sindicato, declarando que tem ideias claras e não querem partidos ou sindicatos “delante o detrás”.

O que acontecerá depois de 22 de maio (dia das eleições) ninguém sabe. O que é certo é que milhares de pessoas se organizaram de forma espontânea para lutar por outra democracia, mais participativa e aberta. Parece ser que 2011 é mesmo o ano das revoltas, numa era onde todo mundo fala de individualismo, Playstation e compras virtuais, isso comprova que o ser humano ainda pode ter solução e que o improvável não é impossível.

Categories: Espanha, sevilla

4 comentários

  1. Eu e minha esposa estivemos na Puerta del Sol durante nossa passagem por Madrid, o lugar é imenso. Como ali há muito comércio e vários acessos ao Metrô, além de alguns monumentos (como o do urso comendo frutas na árvore), a truculência da Polícia talvez tenha sido causada pela reclamação de muitos endinheirados que mantêm negócios nos arredores.
    Fico imaginando se o povo brasileiro fosse como o europeu, indo em massa às ruas toda vez que se indignasse com alguma situação interna. Certamente a situação de nosso país seria muito diferente. Porém, infelizmente os donos do poder controlam as mentes da população por meio dos meios de comunicação e dos políticos, anestesiando a grande maioria aos problemas sociais que nos rodeiam.

  2. Beth says:

    Parece ser que 2011 é mesmo o ano das revoltas, numa era onde todo mundo fala de individualismo, Playstation e compras virtuais, isso comprova que o ser humano ainda pode ter solução.

    Também acho que estava na hora do povo mostrar sua voz – principalmente nos países árabes onde a situação beirava o insuportável há tempos.

    Em termos de Europa, a coisa está mesmo preta é na Grécia, Espanha e Portugal, né? Esses países sempre foram mais suscetíveis, mesmo antes da recessão…agora então nem se fala, já que a recessão atingiu até países como Alemanha e Holanda…

  3. marcio says:

    Parece uma causa justa, uma luta bacana. No Brasil mais notícias de politicos que ganhatam fortunas em pouco tempo que nem precisam explicar como e o povo não quer saber de protestar. Trite!

    Abs!

  4. Ernani says:

    Muito bom, Glenda. É legal saber dos detalhes por quem mora aí e conhece de perto a situação. Esse é um ano pra não ser esquecido. E ainda está só na metade. Tomara que as revoluções continuem…
    bj

Deixe o seu comentário

Glenda Dimuro