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Glenda DiMuro On September - 2 - 2011

Às vezes quando estou viajando com meus botões fico pensando que língua (a que a gente fala, tá?) é uma coisa estranha. São tantos idiomas e dialetos que existem no mundo, tanta gente que só se entende entre os seus, e a gente achando que aprendendo um pouco de inglês e outra língua latina já é suficiente para se comunicar com o mundo.

Tem gente que tem mais facilidade para aprender novos idiomas. Ouvi dizer que quem tem ouvido para música e toca algum instrumento, tem muito mais facilidade na pronunciação, pois está acostumado a imitar sons. Faz sentido, Paulo toca guitarra e muitas vezes os próprios espanhóis (com cera no ouvido, claro) lhe perguntam de qual parte da Espanha ele é. Morro de inveja, já que ele aprendeu a falar espanhol na marra quando chegou e eu passei longuíssimos anos fazendo aula particular antes de vir. Outro exemplo é com o tal do inglês, que eu estudei por 10 anos e hoje só consigo ler alguma coisa e entender alguns filmes. O Paulo, que também nunca estudou nada de gramática inglesa e nem sabe o que é um phrasal verb, faz de tudo, escreve, lê, fala.

E quando vou ao Brasil, o pessoal acha que sou «fluente» em castelhano. Já discuti com muita gente sobre o significado da fluência e os mais entendidos dizem que ser fluente é falar, entender e ser entendido sem maiores problemas. Eu já acho que é fluente quem fala sem sotaque. E de acordo com as minhas exigências de fluência, estou longe de ser fluente em espanhol, bem longe.

A proximidade entre as duas línguas é o que acaba comigo (comigo e com a grande maioria dos brasileiros). É um tal de esqueci-a-palavra-vai-tu-mesmo que te digo. Quando vejo a cara de paisagem do ouvinte é que percebo que falei algo em português e que, infelizmente dessa vez, não se parece em nada com o espanhol. E tem mais, nós gaúchos temos o privilégio de conviver com os «hermanos» e assim escutar o castelhano sem ter que viajar quilômetros, mas perdemos para os nordestinos no quesito pronunciação por um pequeníssimo detalhe: eles falam o D de dia e o T de ti, igualzinho aos espanhóis. Mas é tudo uma questão de prática, eu sei.

Ai quando você acha que está super bem, falando super «fluente» vai passar um mês no Brasil. Volta e seus amigos espanhóis dizem que você está falando «cosas raras», esfregam na sua cara que se nota muito que você esteve no Brasil e lhe dizem, com todas as letras, que seu espanhol está terrível depois das férias. Sinceridade às vezes dói, e eu, entre que tenho um marido brasileiro e estou enfurnada em casa tentando escrever meu doutorado, realmente estou com a minha (já não ótima) fluidez péssima.

Mas é o que temos para hoje. Já que trocar de marido eu não quero, vou ver se me fluo por outras bandas, pois a única maneira de voltar a falar é falando, e melhor ainda se não tem ninguém lhe criticando.

Categories: Espanha

19 comentários

  1. Carla says:

    É Glenda, imagino o quanto é difícil adquirir essa fluência, apesar que pra mim, fluência é falar bem, sem erros, com um bom vocabulário, não importando o sotaque, que afinal, é quase impossivel perder. Eu estudei italiano e espanhol praticamente junto, há mais de 10 anos. Quando vim pra Itália misturava os 3: italiano, português e espanhol. Depois, com o tempo, fui separando, e agora perdi quase que totalmente o espanhol, e sei que entender vou entender com certeza, mas falar vai ser uma salada só! O italiano já é bem próximo do português e é normal “arriscar” uma palavra em português pra ver se “encaixa”, no espanhol então, a probabilidade de acertar usando uma palavra em português é ainda maior, mas o problema é esse, qdo a oferta é demais, o risco de errar tbm aumenta. Mas é assim mesmo! Sotaque a gente sempre vai ter. E aqui na Itália todo mundo tem um, cada cantinho fala de um jeito e eu sou uma que fala de mais um jeito diferente. O engraçado é que sabem que sou brasileira (quem conhece brasileiros ou já foi no Brasil), devido o ã, principalmente. E ainda me dizem: não perde o sotaque não, a gente fala muito feio…rs Então tá bom! bjus

    • Glenda DiMuro says:

      Embora eu saiba que nunca perdei meu sotaque, muitas vezes eu gostaria de não ter… É complicado, é como carregar uma placa dizendo “estrangeiro” na testa. Em certas situações, principalmente nas burocráticas, é um saco. Na Espanha (e acho que na maioria dos países do mundo) esta história de “igualdade”, na prática, não é bem assim.

  2. mirelle says:

    que coincidência nos duas escrevendo sobre as dificuldades com os idiomas hoje! olha, faz uma troca linguistica pra desenferrujar esse espanhol ai! rs

    • Glenda DiMuro says:

      Entrei naquele site dos “intercambios”, mas ninguém tá afim de aprender português em Sevilla!

      • Charo says:

        Bom dia Glenda,

        ¡yo quiero aprender portugués-brasileño y vivo en Sevilla! Encontré este blog precisamente con esas tres palabras en google “aprender portugues Sevilla”.

        También soy una apasionada de los idiomas y tengo facilidad y constancia para “estudiar” por mi cuenta, pero necesito una guía, alguien a quién preguntar dudas, que pueda corregir redacciones y, sobre todo, charlar.

        ¿Te interesaría un intercambio? Creo que tu español tiene que ser mucho mejor que mi pobre portugués, pero puedo ayudarte a perfeccionarlo, a entender reglas de gramática y ortografía… además de facilitar el contacto con un nuevo ambiente hispanohablante.

        Si quieres nos vemos para un café o cerveza y lo hablamos.

        Un saludo,

        Charo

  3. Mile says:

    Eu tenho uma facilidade enorme de aprender idiomas, talvez pelo fato de adorar estudar novas línguas. Estou com a Carla, tb acho que ter fluencia é falar correto, entender e ser entendido, porque o sotaque jamais perderemos.
    E assim como acontece contigo, comigo tb é assim, quando vou ao Brasil o povo aqui diz que volto falando “raro” e tb quando passo o dia falando com minhas amigas brasileiras.
    Aqui dizem que eu falo de um jeito “pijo”, mas tento ao máximo falar como eles, mas o S como Z eu detesto…nao me vejo falando: estoy canzá(cansada).
    Bjoks

  4. Eu acho que a fluência é você se comunicar com naturalidade, sem erros, com vocabulário extenso e gramaticalmente diverso etc.. Basicamente tudo o que o pessoal já falou por aqui…
    Como você levantou no post, os músicos ou quem toca instrumentos musicais tem mais facilidade.. Acho que a questão de falar como os locais é mais uma questão de afinação do que fluência 😀
    Quando falo inglês aqui muita gente acha que sou alemão… Mas nas horas “buracráticas”da vida de expatriado não ter sotaque ajuda muito mesmo…

    Bjs

  5. Dani says:

    Glenda,

    E você ainda tem que saber separar o castelhano do andaluz … fica difícil não se perder…

    Eu que aprendi o castelhano em curso me enrolava quando tinha que tentar entender o gallego do meu avo…

    Abraços

  6. Eve says:

    Ai, te entendo tanto, tanto…
    Bjs!

  7. Milena F. says:

    Eu te entendo!!! Todo mundo acha e espera que com 6 meses morando fora a gente já é “fluente” no novo idioma, mas eu tenho as mesmas exigências que você! Acho que fluente é falar como um nativo, sem cometer praticamente nenhum erro para uma pessoa do mesmo nível de escolaridade.
    O sotaque também me incomoda, mas tem muita gente (brasileiro) que prega que o sotaque é o nosso charme e que perdê-lo seria renegar e perder a nossa identidade… Eu não concordo, mas ao mesmo tempo não consigo perder o sotaque! hahahah

  8. Ernani says:

    Uma amiga irlandesa me vendeu uma vez essa mesma teoria de que fluência é bater um papo numa boa sem parar pra caçar as palavras. Mas quando a pessoa é muito auto-critica, é difícil aceitar. Passei os últimos anos me forçando a falar como os nativos de língua inglesa, pra perder o jeito cantado e as enfases nos fins das palavras que nós brasileiros usamos. Recentemente comecei a fazer consultas com uma fono (por causa do trabalho) e ela disse que eu preciso perder esse jeito inglês de falar, que a curva melódica e a ressonância da minha voz estão ruins pra falar português…. 🙁 É mole? Boa sorte na empreitada…

    • Glenda DiMuro says:

      hahaha…essa é boa Ernani! Mas é isso mesmo, quando volto ao Brasil dizem que eu já não falo tão bem o gauchês… É dura essa vida de linguas e sotaques, né?

  9. gabriel says:

    Adorei o post. Se bem que querer falar espanhol com sotaque Andaluz é impossível!

    Ano passado quando eu tava ai, eu via esse povo falando com o dente entre a língua e não entendia como o faziam…muito “raro,” mas é uma questão de costume.

    Trabalho em uma loja onde vem gente falando espanhol de tudo quanto é país, e já estou com o ouvido bem treinado pra identificar quem é de qual país, mas não tem nenhum tão distinto quanto o sotaque do espanhol, não importa de qual parte do país. parece que eles sempre falam mais grosso que o espanhol de outros países.

    • Glenda DiMuro says:

      Olha Gabriel, estes tempos fui apresentar um trabalho em Buenos Aires e descubir que meu sotaque é andaluz…hahaha…amigos de Barcelona já tinham me dito, mas na Argentina foi onde eu mesma percebi que corto as palavras e digo cada coisa…
      O espanhol da Espanha não é que seja “grosso”, mas com certeza atinge uma frequencia media diferente dos outros países. Enquanto na America o som sai meio “cantado”, aqui é tudo nhenhenhenhenhe…. e mais rápido também. É bem diferente!

  10. Quando aprendi – sozinho! – o espanhol, procurei aprendê-lo com a pronúncia de Madrid: “ll” com som de “lh”, “z” e “c” (antes de “e” e “i”) com som semelhante ao “th” do inglês (com a ponta da língua embaixo dos dentes superiores)… E foi exatamente assim que tentei comunicar-me com os hispanohablantes quando estive na Espanha. Graças a Deus, tudo correu bem, tanto me entenderam como fui entendido. Não encontrei quase ninguém conversando comigo em “andalú”, talvez por perceberem que minha pronúncia era bem pausada, sem a metralhadora verborrágica característica dos espanhóis, e que minha esposa não falava quase nada em espanhol.
    Em resumo, considero-me fluente, embora a língua espanhola seja tão rica que ainda existem muitas palavras cujo significado ainda não conheço.

  11. Juliana Bang says:

    Quer ver morar em Murcia…apesar de ser castellano, gente, eles “comem” muito letras e sílabas…tipo “paná” (para nada), “pacá” (para acá), “palante” (para adelante). No começo, quando cheguei lá e nao falava praticamente nada de Espanhol, apanhei muito. Depois foi bom, porque quando alguem fala comigo um espanhol “limpo” eu entendo com muita facilidade.

  12. rory says:

    Me deixe explicar algo. Está história de fluência ser não ter sotaque, não cometer erros saber “toda” a gramática de uma língua é um conceito totalmente errado. Veja na introdução deste comentário, eu deveria ter dito, “Deixe-me …”, pois senão estaria gramaticalmente errado (o que os linguístas chamam de gramática normativa),some-se a isto falar, “LeitE quentE” ou “Leitchi quentchi”, e dúvido que a grande maioria dos falantes do saibam 100% da gramática portuguesa, apesar de tudo isto eu sou fluente em português. E as expressões que ouvimos diariamente “Nóis vai”, “Cinco milhão” “Se você me ver na rua …” Isto não faz estes falantes não fluentes. Se pesquisarmos em dicionários a definição de fluência, não encontraremos falar sem erros, ou de maneira perfeita ou sem sotaque. Meu conceito seria falar naturalmente, isto é sem muitas pausas, com coerência (“eu irei lá ontem” – não dá) e coesão (“quero aprender inglês portanto irei estudar – ok). A língua tem que fluir. Fluência é diferente de proficiência numa língua.

    Devido a este “pequeno” comentário, não me apresentei, tenho um blog de viagens e cheguei ao seu blog através do Ducs Amsterdam. Parabéns pelos excelêntes posts. Abraços. Rory

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Glenda Dimuro