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Glenda DiMuro On September - 16 - 2011

Volta e meia eu e meu amigos virtuais e companheiros do Blog Brasil com Z decidimos fazer postagem coletivas sobre determinado assunto. Dessa vez tocou falar sobre churrasco. Cada um contou como se assa a carne nos mais diversos cantos do mundo. O resultado ficou jóia e pode ser conferido aqui.

O que deu para aprender com tudo isso é que o churrasco, ou como seja lá que se chame o ato de assar uma carninha, faz parte da cultura do povo ocidental. A herança dos homens das cavernas evoluiu de formas diversas em cada região do planeta, com algumas características comuns e outras bem diferentes. E não estaou falando somente de diferenças entre países não! Deu para perceber que mesmo dentro do nosso Brasil os conceitos de um bom churrasco variam bastante.

Eu, por exemplo, sou gaúcha, e lá no extremo sul do Brasil churrasco é igual a carne, pão e cerveja. Carne boa, pão com alho e cerveja gelada. O resto – salada, arroz, farofa, caipirinha, maionese, vinagrete, queijo parmesão, abacaxi – é tudo valor agregado, mas no fundo não faz muita falta.

Já aqui na Espanha a coisa muda um pouco de figura. Como bem disse o Edu, comer churrasco (que é chamado de barbacoa) em terras ibéricas, dependendo de onde você mora, pode chegar a ser uma triste aventura.

Começamos pela churrasqueira. Casa de gaúcho sem churrasqueira é quase como uma casa sem portas e janelas, há exceções, mas são raras. Aqui na Espanha nunca vi uma churrasqueira de alvenaria (nunca vi, pode ser que em outros lugares longe de sul exista), o pessoal usa as de lata mesmo, ou algumas vezes as elétricas. Espeto é outra coisa inexistente, mas se não existe a churrasqueira apropriada seu uso não tem muito sentido mesmo. Nem churrasqueira nem carnes adequadas… E essa é a pior diferença. Podemos culpar os cortes ou os bois/vacas. Eu digo que nem um, nem outros, se parecem com os que temos lá nos pampas gaúchos. Primeiro porque carne de vaca aqui na Andalucía custa uma fortuna, é a carne de porco que se come normalmente. Muita salsicha e pedaços de bife (de porco), que aqui chamam de «filetes», que se encaixam perfeitamente no modelo de churrasqueira. O resultado é, normalmente, uma bife de sola, meio sem sal, que a gente mete dentro de um pão frio e seco.

Os vegetarianos que me perdoem, mas churrasco é sinônimo de carne, tal como salada é equivalente a verduras e legumes. Sei que quem não come carne e vai a um churrasco, adoraria ver a grelha cheia de legumes (pimentões, cebolas) e nesse ponto não me incomoda. O grande problema é quando a carne vermelha começa a ser misturada com peixes, como muitos espanhóis aqui do sul fazem. Eu abomino esta ideia porque acaba ficando tudo com gosto de salmão ou sardinha (eca!). Também os «pinchos» são abstante comuns, os conhecidos lá no Rio Grande do Sul como «xixos» (espetinho com carne, cebola, pimentão, carne, cebola, tomate, carne…).

Uma diferença estranha mas não menos importante: o assador. Gente, isso sim é de chorar. Enquanto as tradições de um bom churrasco gaúcho dizem que ninguém toca na carne (repito: ninguém toca na carne), exceto o assador, aqui o fogo não tem dono. É um tal de um coloca o carvão, outra salga a carne, outro vira o filete que te digo. Já fui em churrasco que cada um cuidava o seu pedaço de carne. Pode? Não pode. Outra coisa que eles não aceitam é que o assador não se sente à mesa para comer e que fique servindo todo mundo. Eles não entendem que a carne vai ficando pronta aos poucos e que sempre tem que ficar alguém cuidando, neste caso, o assador. Acho estranho quando eu conto que na minha terra, quando se resolve fazer um churrasco, a primeira pergunte é: tá, mas quem se propõe a assar? Parece que por aqui ninguém assa com «prazer».

E tem mais, raramente tem sobremesa engordativa (leia-se pudim, pavês, mousse, docinhos de Pelotas). O que sim não pode faltar depois de comer são umas boas «copas» (podem ser traduzidas por drinks) de «cubatas» (whisky+coca) ou de qualquer outra coisa forte.

Como bons gaudérios que somos, depois de quase 6 anos aqui pela península ibérica, desenvolvemos algumas técnicas que fazem do nosso churrasco, modéstia à parte, o melhor de todos. Ficar amiga do açougueiro é fundamental, sempre pedimos costela de porco cortada em tiras a la asado uruguayo, filetes cortados mais gordos (especialmente as carnes que aqui se conhecem como secreto ibérico ou jamón, que tem mais gordura e não ficam tão secas na churrasqueira) e deixamos as coxas e sobrecoxas de molho num tempero especial desde o dia anterior. Estas são algumas das nossas artimanhas para aproximar a barbacoa andaluza ao nosso churrasco. E temos o nosso eleitorado!

Mas nem tudo são pontos negativos. Normalmente as barbacoas que participo são multiculturais e bastante animadas. Sempre vem alguém de outro lado do mundo trazendo alguma novidade para acompanhar a carne (eles acham um absurdo comer tanta carne). E assim como a gente sempre acaba levando a farofa, outros trazem couscous marroquino, guacamole e até caldo de feijão já comi com churrasco.

Para mim, isso é o mais importante. Claro que uma boa carne ajuda, mas na falta dela, fico com as boas companhias.

Categories: Espanha

9 comentários

  1. Para não dizer que eu e minha esposa não comemos churrasco na Espanha, logo em nossa primeira noite em Sevilha compramos espetos de vitela (“pinchitos de ternera”) com uma quantidade generosa de carne. A Cervecería Mezquita (em frente ao Hotel Puerta de Sevilla), onde comemos tais espetinhos, também os vende com pedaços de frango (“pinchitos de pollo”). Até que eu gostei! 😀

  2. Luiz Peter says:

    churrasco bueno não pode ter valor comercial – serve prá confraternização…

  3. Ernani says:

    O final foi ótimo! Churrasco só precisa de carne e carvao. Mas não é nada sem as boas companhias. Obrigado por me deixar morrendo de fome. Lá vou eu pra cozinha… 😉

  4. Silvana Bicca says:

    Glenda,
    Sou de Porto Alegre e acabei de voltar do Uruguay, onde realmente comemos os melhores assados. Há um tempo conhecemos um mineiro que perguntou se os gaúchos comem churrasco de “onça”. Estranhei a pergunta. Ele queria saber se comíamos churrasco com salada e outros acompanhamentos ou somente a carne, o que é bastante comum por aqui. Por isto chamam churrasco de “onça, quando comemos somente carne.

  5. Raquel says:

    Ai, deixa eu explicar pro meu marido que churrasco não é sinônimo de carne! rsrsrs Nunca vi tamanhã ideia fixa…rs Abraços, Raquel

  6. Cássio says:

    Sou paulista e não estou muito ligado no assunto. Mas gostei do post, principalmente do final. Com excessão dos vegetarianos, claro que todo mundo gosta de um bom churrasco, não é mesmo? Mas o mais importante é confraternizar, ter a familia e/ou os amigos por perto! Participar de uma boa conversa, curtir uma boa música, jogar baralho e o que mais quiser fazer, isso sim é o importante. O churrasco é apenas a desculpa para se reunir.

  7. Allan says:

    A “grigliata” italiana tem frango, linguiça, muita carne de porco e, às vezes, carne de boi. No mercado central de Piacenza – duzentos metros de casa – tem um açougue no qual trabalham dois brasileiros. Eles cortam a carne como estamos acostumados, se solicitado. Picanha, fraldinha, etc, mas é sempre carne italiana. Quando combinamos um churrasco, compramos picanha argentina ou brasileira embalada a vácuo que o fornecedor traz para os restaurantes dos amigos. Só ainda não consigo comer churrasco com vinho.
    E hoje tem! 😀

  8. Marco says:

    É isso aí, para o churrasco, ou tainada como também chamamos aqui em algumas zonas de Portugal, só são necessárias 3 coisas : a carne, as cervejinhas e a companhia, o resto vem por acréscimo. Continuem com o excelente trabalho aqui no blog pessoal…

  9. Julia says:

    Oi Glenda,
    Sou brasileira e estou morando aqui em sevilla.Estou sentindo muuita falta de carne de vaca, vc sabe onde eu possa achar?obrigada

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Glenda Dimuro