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Glenda DiMuro On November - 24 - 2011

Nunca fui muito beijoqueira. A etiqueta e a boa educação brasileira mandam cumprimentar as pessoas com um oi e dois beijinhos. E em eventos ou celebrações menos formais o costume é beijar todos os presentes. Na chegada e na saída, claro.

E se tu és do extremo sul do Rio Grande do Sul, te toca dar três (nem um, nem dois, mas três) beijos quando encontras um conhecido ou és apresentado a um desconhecido. Beijo, beijo e mais outro beijo. E não são poucas as ocasiões onde seres que pertencem a outras culturas deixam um gaúcho pendurado no terceiro beijo. Neste caso há duas saídas: 1) agarrar a outra pessoa, forçar a voltar à situação anterior e dizer que aqui se dá três beijos, tchê! ou 2) dar uma disfarçada básica, coçar a cabeça, olhar para o lado – sério, só quem já passou por isso sabe o que estou falando – e fingir que você também tinha a intenção de dar dois beijos.

Devido ao meu hábito de dar um oi e um tchau geral em situações que normalmente envolvem muita beijação, já fui taxada de mal educada, nojenta, fria, esnobe, grossa. Sim, no Brasil é uma extrema grosseria deixar de beijar alguém em situações onde a cultura local considera o beijo um requisito obrigatório.

E como essa coisa de estender a mão para um aperto também é considerado formal demais, vivi anos da minha vida dando beijos desnecessários e contra a minha vontade. Vejam bem, adoro beijar e afofar quem eu amo de paixão e tenho intimidade (e principalmente estou me referindo apenas ao beijo na bochecha, beijo na boca não está incluído neste texto, obviamente). O tipo de beijo que eu fujo é o institucionalizado, aquele que simplemente esfrega bochechas por esfregar, sem troca de sentimentos.

Eis que venho morar na Europa onde supostamente as pessoas têm outro tipo de comportamento, são frias e evitam o “contato físico”, o paraíso para aqueles brasileiros nem tão tropicais e atípicos que, como eu, acham que beijo em excesso é hipocrisia. Eu só não esperava que esse povo do sul da Espanha fosse também bastante beijoqueiro para os estereótipos do velho mundo.

Aqui as pessoas se beijam, digamos, comedidamente. Em certas ocasiões chegam e se beijam, principalmente se são bons amigos (neste caso até homem beija homem e isso é absolutamente natural). Quando alguém te apresenta outro alguém, se beijam, mas não é obrigatório. Quando você chega atrasada num aniversário que só conhece o aniversariante, não existe nada daquilo de sair beijando todo mundo. Quer dizer, não existem regras, você pode beijar todo mundo, beijar alguns ou não beijar ninguém se assim desejar. E não vai ser chamada de grossa ou esnobe se decidir manter sua bochecha longe de qualquer outra.

Confesso que gosto dessa liberdade, mas muitas vezes fico confusa, principalmente quando não estou em uma roda de amigos. Tem vezes que eu acho que devo beijar, outras fico a espera que a outra pessoa me beije e em alguns casos, quando ninguém se beija, eu acabo achando que deveria ter beijado e peço um beijo depois de iniciar a conversa, com um ligeiro atraso. Uma bagunça na cabeça de uma pessoa que vem de uma cultura que aparentemente banaliza os beijos.

Nossa raça é conhecida pelo gosto do contato físico, fato é que mais de um amigo do lado de cá (que claro conheciam outros brazucas, latinos e Cia Ltda.) já me perguntaram por que a gente gosta tanto de beijar, abraçar, tocar… Não sei. Só sei que o Brasil é muito grande e da mesma forma que nem toda espanhola dança flamenco na Espanha, pois nem toda brasileira samba, gosta de carnaval e distribui beijos a torto e direito.

E muito prazer (sem beijos), sou uma delas.

Categories: Brasil, Cotidiano, Espanha

9 comentários

  1. João Paulo says:

    “Tem vezes que eu acho que devo beijar, outras fico a espera que a outra pessoa me beije e em alguns casos, quando ninguém se beija, eu acabo achando que deveria ter beijado e peço um beijo depois de iniciar a conversa, com um ligeiro atraso. Uma bagunça na cabeça de uma pessoa que vem de uma cultura que aparentemente banaliza os beijos.”

    hahahahahaha! Essa parte foi boa!

    Essa beijação é complicada msm, nunca entendo! E como aqui em Granada (não sei como é em Sevilla) sempre tem um tanto de estrangeiro chegando, nunca sei como isso funciona na cultura deles. Daí nas apresentações, adotei a seguinte postura: com as nativas, uso os dois beijos tradicionais daqui, já com as estrangeiras, somente se perceber que já estão habituadas, caso contrário, uso o bom e velho aperto de mão.

    Um abraço!

    • Glenda DiMuro says:

      Ai, e quando vc começa o beijo como o habitual ou seja, com dando a bochecha direita, e a criatura começa o beijo pelo outro lado??? Afe, eu achava que isso era regra internacional! 🙂

      • João Paulo says:

        Pior é quando se encontra aquele monte de gente, você vai pra beijar alguém, vem outro e cruza o seu caminho te deixando no vácuo com o bico no ar!

        Tô começando a dar um “hola” generalizado, mais fácil 😀

  2. Pois até numa mesma cidade é possível existir diferenças quanto a isso. Até 2004, fiz parte duma igreja grande do Centro de Sorocaba onde somente os mais íntimos se beijavam (um beijo só) no rosto, Entre 2004 e 2006, permaneci numa igreja menor de bairro onde todo mundo se beijava. E a partir de 2006, estou numa igreja ainda menor (que atualmente está em vias de passar de igreja pequena para igreja média) onde quem beija demais pode gerar escândalo e até crise de ciúmes.
    Durante minha passagem por Sevilha, conforme eu já disse noutra manifestação por aqui, percebi que o costume do sul da Espanha é a troca de dois beijos no rosto. Tanto que, quando esperei por você e meu xará naquela esquina perto da Catedral, o Paulo me deu um abraço e você me cumprimentou com os dois beijos protocolares como se vocês dois me conhecessem havia muito tempo (coisas da geração que se comunica via Internet).
    Em resumo, tudo depende da cultura. Na Bíblia se fala em “ósculo (beijo) santo”, indicando que os judeus e cristãos do primeiro século d.C., inclusive os homens, beijavam-se no rosto, algo que hoje é bastante comum na Rússia e na Coréia (pelo menos a do Sul). Já noutros locais, como a Alemanha, a frieza é tão grande que um beijo no rosto parece exclusividade de pessoas muito íntimas entre si.

  3. Renato Alves says:

    Pois é…
    Eu acho que cumprimentar é de bom gosto seja a maneira que for. Eu também se chego em um lugar que já tem um monte de gente, cumprimento todos com um oi geral. Nada de beijinho um por um.
    Agora o que me deixa puto aqui nesse país é que as pessoas não cumprimentam quem não conhecem. Por exemplo, você pode estar conversando com alguém, e um amigo desse alguém chega cumprimenta o alguém e nem olha na sua cara. Pensei se tratar de um ou outro caso isolado. Mas depois de tantas manifestações da falta de educação, acabei me rendendo ao pensamento que é um pouco cultural.
    Na casa da avó da minha família americana, muitos dos parentes simplesmente me ignoram. No último Thanksgiving eu retribuí com a mesma grossura. Não olhei na cara de quem não me cumprimentou nem mesmo quando estávamos na mesa e quer saber?? Eles se sentiram “desconfortáveis”.
    Vai tomar no…só falando assim mesmo. How rude is that??????
    Bjs

  4. Mile says:

    Ai Glenda, vc tocou num ponto onde “sofro” muito com essa beijaçao do povo daqui. Gente, ô povo que gosta de beijo, diria que até mais que brasileiro. Eu tb nao sou beijoqueira. Vc acredita que lá no trabalho(somos umas 9 pessoas) TODA vez que as meninas chegam se dao beijos entre elas? Eu já tava de saco cheio de ter que ficar beijando uma por uma(pra mim era um sacrifício diário, sem exageros) todo santo dia e disse: sinto muito, se acabou essa beijaçao toda, vou dizer apenas um oi pra cada uma e já é suficiente. Claro que falei isso pq tenho confiança com elas e elas me conhecem perfeitamente, se nao teria sido tachada de antipática. Entao todo mundo já sabe que nao tem que me beijar.
    Uma vez meu chefe me apresentou uma nova colega de trabalho e na hora que fui apresentada lhe disse: hola, encantada! Ele me olha desconcertado e me diz: dá dois beijos nela, aqui na espanha quando se é apresentado tem que dar dois beijos!!! Me senti na obrigaçao de beijar a menina que nunca tinha visto na vida, eu ia discutir com ele que o correto quando te apresentam alguém que vc nunca viu, o ideal é cumprimentá-la ou com aperto de mao ou com um “prazer em conhecê-la”?
    Detesto beijaçao desnecessária ou por compromisso.

  5. Antonia says:

    Oi Glenda, como voce ja deve de saber galego so da beijo e abraço em estaçao de trem e aeroporto, aqui na Galicia como em toda Espanha se da dois beijos, eu nao sou beijoqueira detesto que me beijem que me toquem dificil de dar ate a mao, mas se eu gosto muito da pessoa e as vezes tem realmente pessoas que sao muito queridas sim que dou dois beijos e se nao nao dou e pronto, alias isso fazia no Brasil tambem, claro com a idade fui ablandando e ficando meio mixirica e agora ate beijo alguns.

  6. Lorna says:

    Como eh bom encontrar “gente estranha” nesse mundo. POxa, eu nunca entendi esse negocio de tanto beijo que nos brasileiros saimos dando por ai. Sinceramente, nao me sinto confortavel. O pior eh quando voce “tem de” beijar o amigo do marido que voce simplesmente detesta ou quando vc tem uma familia grande e sai dando beijo em mais de 50 pessoas (o meu caso). Sei lah, na minha cabeca os beijos e abracos devem traduzir sentimentos bons e devem ser usados em situacoes que os envolvidos sintam-se bem e nao uma obrigacao, caso contrario, perde-se totalmente o sentido de carinho. Aqui nos EUA as pessoas apertam a mao ou falam oi mesmo. Way better!

  7. Nívia says:

    quem disse que é cultura local gostar de tocar nas pessoas?
    eu ODEIO gente pegajosa, que falta segurando o braço, fica passando a mao da nossa cabeça, chega par afalar e vai logo passando o braço pelos ombros, ou a beijação qdo chega qdo sai,
    eu vou logo saindo na frente dando um tchau geral e dizendo;. “Olha gente to indo, até a próxima, beijos!”
    qdo é absolutamente impossivel escapar, a gente até se submete a um abraço por mera educação mesmo e nao pelo desejo de agradar.
    é claaaro que isto por estas plagas é considerado deseducação, falta de sociabilidade, um monte de coisnhas estúpidas como essas, mas eu digo que eu adoro qdo encontro gente asssim , bem rápida no chegar e no partir, bem prático, bem rápido, à jato….
    eu prefiro o aperto de mão, é tão mais limpo, mais civilizado
    o oi, geral, o tchau geral, os “foi ótimo, adorei a companhia, o passeio, o jantar”…
    é um horror a intimidade forçada, eu não suporto
    aliás intimidade é uma coisa dificílima de se adquirir….

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Glenda Dimuro