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Glenda DiMuro On November - 20 - 2011

Hoje é dia de votar aqui na Espanha.

Infelizmente, não posso explicar com detalhes como funciona o processo de eleições por aqui porque o sistema é bem diferente do Brasil, e até hoje ninguém teve paciência para me explicar tintin por tintin como é que alguém acaba chegando ao poder.

Pelo menos eu sei (ai, ai, se não soubesse…) que o sistema de governo na Espanha é uma monarquia parlamentarista, ou seja, tem rei, rainha, príncipes, princesas e agregados. O herdeiro da dinastia histórica é rei Juan Carlos I de Borbón e a família real vivem em palácios, passam as férias em Mallorca, estudam nos EUA e, é claro, viajam pra lá e pra cá e participam de atos benéficos e importantes. Quer dizer, na verdade não pintam muito na vida (política) como ela é do país. Quem governa mesmo é o presidente, escolhido por meio de eleições a cada 4 anos. Depois estão os senadores e os deputados, também eleitos pelo povo e os ministros, escolhidos pelo governo. A nível autonômico (aqui os estados são autônomos) também estão outros presidentes e depois vem os prefeitos e uma série de ajudantes…

Existem duas diferenças básicas com relação ao sistema eleitoral do Brasil. A principal delas é que aqui vota quem quer. E não se vota em nenhum candidato, mas no seu partido. Ou seja, em cada comunidade autônoma ou provincia (província é uma união de umas quantas cidades, e umas quantas províncias foram uma comunidade autônoma) cada partido escolhe quem vai ser o seu cabeça de lista e quem vai sair de segundo, terceiro… Então não tem essa de votar no primo do seu vizinho ou no candidato mais bonito. O voto é no partido e ponto, e se o candidato do seu agrado não estiver entre os primeiros da lista, se sente muito. Principalmente se ele não concorrer por nenhum dos partidos mais importantes do país…

Esta é outra característica desse modelo espanhol. O sistema não é igualitário e aberto a todos os partidos e sofre há anos de um bi-partidismo que impede que o congresso e demais instâncias governamentais, principalmente a nível nacional, se renovem. Na prática se aplica o que é conhecido como o “engaño de los escaños“, um sistema de contagem de votos onde os partidos que elegem mais deputados, por exemplo, não são os mais votados (assim podem se dar situações onde um partido com 40mil votos eleja um deputado e outro com mais de 200mil não coloque nenhum). Na atual corrida eleitoral participam 14 partidos, mas tanto o debate televisivo (sim, aqui só houve um debate e pelo visto a confrontação entre os candidatos não é comum já que o primeiro debate entre presidenciáveis aconteceu em 1993 e isso só voltou a ocorrer 15 anos depois, nas últimas eleições de 2008), quanto a mídia e os eleitores não tem olhos para os partidos minoritários. PP (Partido Popular) e PSOE (Partido Socialista Obrero Español) parecem ser os únicos partidos “votáveis”.

O movimento dos indignados 15M ressuscitou o debate sobre a oposição. Com gritos de “não nos representam” abriram a mente e os olhos de alguns votantes (infelizmente de alguns poucos, segundo as pesquisas de intenção de voto) lembrando que existem alternativas ao PP-PSOE. Na minha opinião, não intencionalmente essas atitudes acabaram beneficiando o PP, que é um partido de direita, já que a maioria das pessoas que se indignam por alguma coisa eram antigos partidários da esquerda, ou seja, do PSOE, e ao se debandarem para os partidos pequenos aumentaram a vantagem do PP frente ao PSOE.

Eu que há anos não voto em partidos de direita, tenho bastante receio com o que está por vir. Não é novidade para ninguém que a Espanha está imersa na pior crise econômica da história, e o PSOE é culpado sem piedade por essa situação (e embora parte dessa culpa se deva a atual conjuntura econômica mundial, a Espanha realmente não se preparou e não fez um planejamento adequado para lidar com o tempo das vacas magras, prova disso é que outras economias da UE não estão sofrendo tanto, só as que anteriormente já eram mais frágeis, como Portugal, Irlanda, Grécia e agora Itália). Mas direita é direita e o tal Rajoy (líder do PP) – que já é considerado como vitorioso desde que o atual presidente Zapatero (PSOE) admitiu ser o culpado pela crise e decidiu adiantar as eleições – deixou seu programa eleitoral bastante “vago” respeito a diversos direitos sociais adquiridos em tempos socialistas, tais como a Lei do Aborto, do Matrimônio Homossexual e Leis de Estrangeiros.

Enfim, não tenho direito a votar, mas fiz a minha parte nessa campanha eleitoral ajudando a divulgar um partido novo e que me parece bastante coerente. O orientador da minha tese, que já é bastante ativo politicamente em movimentos sociais de Sevilla, decidiu entrar para a política partidária e se canditadou a deputado. Se filiou ao EQUO (partido ainda sem nenhuma representação) que é formado em grande por ativistas sociais e ecológicos, professores e intelectuais, e cuja ideologia está baseada na ecologia política, na sustentabilidade ambiental e na equidade social. Não deixa de ter um vínculo com os “verdes” (como chamam aqui os partidos ecologistas) já que também o seu cabeça de lista é ex-diretor do Greenpeace na Espanha.

É triste, mas Mariano Rajoy e seu programa eleitoral não vão conseguir tirar a Espanha da crise. Não se as coisas seguirem sendo feitas da mesma maneira e somente com outros nomes. O que este país (e por que não o mundo inteiro?) precisa é de outro modelo econômico, um modelo mais justo e solidário, participativo, onde os conceitos de desenvolvimento e crescimento sejam revisados e que sejam os cidadãos os verdadeiros beneficiados com as políticas implantadas. Um governo mais respeitoso com a humanidade e com o meio ambiente. Mas parece ser que ainda não estamos evoluídos o suficiente para conseguir pensar em objetivos que não sejam meramente econômicos.

E como o improvável não significa impossível, ao final da jornada do dia de hoje poderemos ter algumas surpresas… Como dizem por ai, cada povo tem o governo que merece, mas driblar o sistema político e conseguir que os representantes do povo deixem de ser “mais dos mesmos” não é tanto uma questão de improbabilidade neste país. Embora as pesquisas indiquem uma vitória esmagadora e histórica do PP, e o próprio sistema impeça a ascensão dos minoritários como Equo, o certo é que as coisas já não serão como antes. Tenho a vaga impressão que este povo já começa a pensar que merece outra coisa, basta agora acreditar nesse merecimento e utilizar as armas que tem para mudar.

Categories: Espanha

3 comentários

  1. Infelizmente a versão espanhola do PSDB (Partido da “Social Democracia” Brasileira) teve a maior vitória sobre a versão espanhola do PT (Partido “dos Trabalhadores”) desde 1977. Como você pode ver, o Brasil também caminha para o bipartidarismo, já que os respectivos partidos de Serra/Alckmin/Aécio e Dilma/Lula/José Dirceu, que são representados pelas MESMAS CORES de seus correspondentes espanhóis, dominam a política de nosso país há muitos anos e os demais partidos, como o PMDB, apenas pegam carona para se manterem à sombra do poder ou mesmo para servirem como partidos de aluguel.
    Voltando à Espanha: pelo que percebi, se por um lado Zapatero, apesar de todos seus erros, representou a busca por um meio termo ou mesmo por mudanças em uma série de paradigmas até então indestrutíveis na política espanhola, Rajoy é um terrível retrocesso e as maiores vítimas da política conservadora do Partido “Popular” serão as camadas mais pobres da população, em especial os excluídos e os imigrantes, já que o corte de verbas nas áreas sociais é praticamente certo. Assim como acontece na maioria das empresas em crise, que sempre colocam a demissão em massa de funcionários como primeira opção para saírem do vermelho, creio que o novo governo também prejudicará os investimentos em saúde e educação, por exemplo.
    Espero que os movimentos sociais consigam pressionar Rajoy para evitarem tal retrocesso.

  2. Ernani says:

    Boa, Glenda. O resultado foi óbvio, mas ninguém precisa se acomodar com isso. A crise no continente tem se mostrado tão política quanto econômica. O Zapatero foi só mais um na lista de primeiros-ministros que cairam no meio dos problemas financeiros. Se o cidadao continuar marcando em cima, talvez os novos líderes façam algo melhor…
    bjos e thanks pelo texto

  3. Antonia says:

    Oi Glenda, aqui na Espanha para um partido chegar ao poder ele tem de ter a maioria absoluta se nao consegue essa maioria absoluta, ganha, mas nao leva, ou entao tem de fazer acordos para gorvernar junto com outros partidos rivais inclusive. Bem a Espanha embora voce nao goste tem uma larga trajetoria de governos de partidos de direita, que aqui sao de direita pero no mucho, depois da ditadura larguissima de Franco, foi quando os Espanhois puderam votar, os Espanhois sao super discutidores les encanta a politica e geralmente sao muito politizados seja qual seja o partido,
    E sim que a Espanha se preparou pra crise porem a Espanha faz parte dos pigs que nunca tiveram muito credito na UE.
    Ninguem nenhum pais nenhuma economia esta preparada para isso que esta passando agora, e se os paises vao caindo os fortes os fracos todos serao afetados.
    Nao creio que importa muito o partido, vejo aqui na Espanha politicos profissionais me dao bastante segurança, sao super profissionais.
    Bem Glenda eu voto votei no PP nao por nada mas porque claro espero um cambio, nao creio que vai passar nada que nao passaria se qualquer outro partido governasse, acho que nesse momento ninguem vai poder fazer nada diferente ou muito fora dos padroes da UE.
    Bem desculpe o largo comentario um beijo

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Glenda Dimuro