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Glenda DiMuro On February - 22 - 2012

Pouca (pouquíssima mesmo) gente sabe o que eu realmente faço por terras ibéricas. Tem gente que acha que eu não faço nada (grandes amigas acham isso) e outros pensam que eu só tiro foto bonita (meus fãs do Facebook). Uma boa quantidade de viventes tem conhecimento de que eu ando estudando alguma coisa. Desse bando, metade sabe que estou fazendo um doutorado. Dos que sobram, raros realmente sabem o que é escrever uma tese de doutorado. Três ou quatro sabem sobre o que eu pesquiso…

Prova disso é que volta e meia alguém me pergunta o que eu estou fazendo aqui. Não no sentido filosófico da coisa (Algo do tipo: “Mas o que tu ESTÁS FAZENDO na Espanha?” Dá para perceber a diferença?). A criatura realmente não sabe como ocupo meus dias. Mas não pensem que essa pergunta vem de algum leitor desavisado do blog. Nada disso, ela é feita (na maior parte das vezes) por pessoas de relações bastante próximas.

Faltam-me dedos da mão para contar quantas vezes respondi a esta pergunta na minha última ida ao Brasil. Das duas uma: ou o povo perdeu a memória ou a vida de quem mora longe deixou de ser interessante passados os cruciais 6 meses de adaptação (porque, cá entre nós, todo mundo sabe que existe a galera do “agouro”). Concluí que das duas, duas. Pessoal esqueceu o que vim fazer aqui porque minha vida deixou de ser interessante a partir do momento em que já não me faço presente. Só pode.

É então quando eu, com toda a paciência que Deus não me deu (mas que a maturidade sim), tento resumir em poucas palavras o irresumível (quem é doutor ou já passou por este processo sabe perfeitamente do que eu estou falando) e explico de que se trata a tal da minha tese. Quando abro a boca, a pessoa que perguntou já se arrependeu, porque claro, na verdade ela não está verdadeiramente interessada em saber os fundamentos teóricos da minha pesquisa, ela só quer saber como eu ganho a vida (leia-se de onde eu tiro dinheiro para comer o meu jamón serrano de cada dia, é isso o que importa).

A coisa piora quando eu falo que a tese é sobre agricultura urbana. As reações são as mais adversas. Alguns dizem, “que interessante” e outros seguem com cara de paisagem… mas tu não és arquiteta? O que tem a ver agricultura com tudo isso? E urbana? Confesso que aprecio mais aqueles que se expressam facialmente, pois entendo que é realmente difícil – principalmente num contexto como o da minha cidade no Brasil, cuja extensão territorial urbana é grande e a rural também – para alguém que nunca ouviu falar do assunto conseguir entender o que é agricultura urbana, e principalmente o que isso tem a ver com uma arquiteta. Pessoal se esquece de que sou arquiteta e urbanista. Mais urbanista que arquiteta (lembro até hoje que briguei com o carinha do quadro de formatura porque ele colocou Turma de Arquitetos 2003/01 – cadê o urbanistas?!).

Enfim, tento explicar que isso é mais comum do que parece, principalmente em contextos periurbanos e que na Europa é uma “volta às origens”, quando as cidades amuralhadas eram rodeadas pelos campos que as abasteciam. No contexto de Sevilla, cujo término municipal está quase todo urbanizado e não existe o conceito de zona rural (o solo é urbanizável, não urbanizável ou protegido) o que resta de terrenos utilizados para fins agrícolas pode ser considerado ouro se a gente pensar num futuro (não muito distante) onde o preço do petróleo vai chegar às alturas e o valor do transporte começar a ser internalizado nas importações de alimentos. Mas não só isso, a urbanização por aqui já alcançou os níveis de ocupação absurdos, grande parte do território fértil já foi asfaltada e recuperar a função social dessas terras é fundamental para a sustentabilidade (quando digo a palavra mágica, todo mundo concorda) local. E isso sim tem a ver com o urbanismo, pois o Planejamento Urbano daqui pintou de colorido o que era verde, e propõe a construção de residências e setores industriais e terciários bem em cima das hortinhas… mas como há males que vem para bem, a tal crise parou com todo e qualquer tipo de obra ou especulação imobiliária (por enquanto). E no meio disso tudo, está o povo que cultiva e, atualmente, a galera que resolveu abraçar a causa e comprar diretamente desses produtores, criando grupos de consumo e redes para fomentar este uso agrícola da zona. E a tese, resumidamente, é isso, como as pessoas podem produzir e gerir seu próprio hábitat contrariando, entre outras coisas, desde o planejamento urbano até todo um sistema agroalimentário vigente. Verificar em que medida estes processos ajudam a fomentar a construção de uma cidadania ativa e diminuem a desagrarização cultural, e também analisar as consequências dessas ações em distintas escalas. Os resultados podem contribuir para criar outro modelo de ocupação do território e para o desenvolvimento de políticas públicas relacionadas com a agricultura urbana como um equipamento necessário para a cidade.

Se você chegou até aqui, obrigada. Você é realmente um bom ouvinte. A grande maioria (da minoria que me escuta) deixa de prestar atenção quando eu digo a palavrinha mágica que começa com S. Agora você já sabe um pouco mais sobre esta pessoa que vos escreve. Sou mais que um rostinho ajeitado em paisagens belas do Velho Mundo. Sou uma trabalhadora invisível que não recebe um mísero tostão  por pesquisar sobre saídas para o futuro (não só daqui, dai também), uma louca que resolveu escapar do Brasil (justo na época do boom imobiliário) para fazer sabe-se-lá-o-que na Europa falida.

Sabe-se-lá-o-que…

Categories: Cotidiano, sevilla

36 comentários

  1. Sandro Priebe says:

    Ahhhh, então é isso que fazes aí?!?!?!?!
    Hehehehehehehehehehe
    É o Paulinho que não faz nada, fica ouvindo heavy metal o dia todo!!!

  2. Raquel says:

    O teu doutorado ainda é “mais fácil” de explicar. Me imagina explicando sobre modelos matemáticos que servem para um mundo que não é o que vivemos?!

    Viva as gaúchas que ganahram a europa em busca de um título e de uma nova experiência de vida 🙂

  3. Helena says:

    Muito legal, Glenda! Parabéns pelo tema da tua tese!

  4. Luiz Peter says:

    Parabéns Glenda pela dedicação à ajudar encontrar saída para a necessidade mais elementar da vida… Afinal já somos 7 bilhões de indivíduos que temos necessidade de engolir sólidos, líquidos, gasosos, etc para mantê-la diariamente. Eu já to fazendo a minha hortinha no quintal aqui de casa. Continua sempre em frente, tens todas minhas energias positivas, pensando sempre em ti à cada dia.

  5. Já fui universitário e sei o quanto é difícil fazer uma monografia, ter que obedecer a uma série de normas para a apresentação do Trabalho de Conclusão de Curso… Apresentar uma tese de doutorado então deve ser muuuuuuuito mais difícil.
    Entendo que você conseguiu explicar bem o assunto de sua tese. Já vi muitas reportagens pela televisão a respeito de hortas e jardins em centros urbanos. São Paulo é uma das cidades onde boa parte da população está investindo nisso, pois muitos que vivem ali (mais por necessidade do que por afetividade, creio eu) não agüentavam mais o cinza da Paulicéia e resolveram encher de verde as varandas, as sacadas, as janelas dos apartamentos, as áreas comuns dos condomínios, os terraços… Isso ajuda a diminuir os efeitos da poluição, pois na fotossíntese as folhas das plantas absorvem CO2 e liberam oxigênio (creio que você também deve ter colocado esse detalhe em sua tese).
    Parabéns pelo trabalho! Que Deus a abençoe e a oriente em sua empreitada.

  6. Ernani says:

    Pobre vizinha! Sofro há 4 anos do mesmo efeito. Quem fica (a maioria, pelo menos) parece só se importar com o que a gente faz pra pagar a pint de cada dia. O resto é bobagem. Enfim. Eu sabia do doutorado e da relação com urbanismo, mas não estava por dentro dos detalhes. Achei do caralh.. Muito bom! bjos e boa sorte!

  7. Glenda,
    Sou super solidária com você!
    Eu vejo as mesas caras que você quando falo que sou antropóloga. Aqui na Espanha explico que não sou arqueóloga. No Brasil explicava que não era assistente social.
    Tenho a impressão que as pessoas tem preguiça de pensar fora das caixinhas de coisas socialmente estabelecidas.
    E ai que preguiça eu tenho dessas pessoas!

    Força com a tese!!
    bjo
    Sandra

  8. Silvia Tavares says:

    Oi Glenda! Essa coisa de “agricultura urbana” eh dificil mesmo de explicar dentro da estrutura da “Arquitetura e Urbanismo” no Brasil. Aqui a faculdadede de Landscape Architecture eh separada dos cursos de Arquitetura, Urbanismo e Building Science. Landscape nao eh fazer jardim e plantar flor, eh um curso completamente interdisciplinar que aborda desde planejamento e desenho urbano ate florestas urbanas, paisagem e cultura rurais, biodiversidade etc. Envolve antropologos, biologos, ecologistas, urbanistas, arquitetos, geografos e por ai vai. Quando tentei explicar no Brasil que estou na faculdade de paisagismo (segundo a traducao literal) as pessoas me olhavam atravessado como quem diz, “como assim, agora vais fazer jardim?!”. E ve so que meu projeto lida com paisagem e microclima urbanos, adaptacao cultural e social, desenho urbano e “resilient cities” (em terra pos-terremoto funciona assim). Alias, “resilient cities” eh o que ha por aqui, a tal palavra que comeca com “S”, a gente nem termina de dizer e eles ja comentam que eh cliche. E eu nao discordo. Boa sorte no teu trabalho! Beijo beijo

  9. Ola Glenda. Mais uma vez você e seu blog serviram de inspiração para um post meu. Confesso que eu passo por isso – de ngm querer saber o que eu faço – sempre. E eu fico chateada, triste e nunca tive coragem de escrever no blog sobre isso. Mas seu post me deu coragem! Obrigada! Sempre acompanho o que vc escreve e parece que tudo se encaixa no que eu vivo. Parabéns pelo post e cheque no meu blog o que escrevi sobre isso, citando seu blog é claro!

  10. Muito bom! Conheci o blog através do Ernani Lemos, voltarei mais vezes com toda certeza.

    Parabéns, texto excelente e layout muito bacana.

    Prazer : )

  11. Beth Blue says:

    Glenda, agora eu não entendi uma coisa…sem querer ser indiscreta mas como è que você sobrevive na Espanha sem bolsa de doutorado do Brasil ou qualquer outro tipo de ajuda? Você trabalha nas horas vagas (quando não está estudando ou escrevendo sua tese) ou o marido é que ganha pelos dois?

    • Glenda DiMuro says:

      Beth, essa pergunta eu já respondi várias vezes… Embora eu não seja curiosa o suficiente e nunca pergunte nunca para ninguém qual a sua fonte de renda, parece que nem todo mundo é assim e já me acostumei em responder sem problemas. Estou sem trabalho fixo há dois anos e meio, mas já trabalhei bastante aqui por estes lados (as vezes mais de doze horas por dia), em escritorio de arquitetura e na Universidade. Ganhei um bom dinheiro por um bom tempo, enquanto meu marido buscava seu lugar no mercado de trabalho aqui. Hoje em dia é o contrário, ele é quem trabalha bastante. Para isso serve o casal. Também sempre tive a sorte de contar com o apoio da minha mãe sempre que necessário. Tenho um imóvel alugado no Brasil e volta e meia ganho um dinheiro con o blog. Enfim, vamos levando uma vida sem luxos, mas nunca nos falta nada!

  12. Anita says:

    Glenda, babei com o penúltimo parágrafo. Se eu fosse milionária te financiava com o projeto que vc tivesse. Agora, tem gente que também acha que eu não faço nada, já que vivo escrevendo para blogs, tenho dois filhos, nenhuma empregada, etc.. Por isso coloquei como empregador no FB “I am Too Pretty to Work”, função: CEO.

  13. Marina says:

    Glenda, eu já tinha me identificado com muitas das coisas que tu publicas aqui, mas este texto ‘me ha llegado al alma’.
    O que comentas sobre deixar de ser interessante por não estar mais presente e sobre aqueles que se arrependem de perguntar qual o tema da pesquisa e ficam com cara de paisagem são verdadeiras pérolas.
    Fica aqui a solidariedade de outra doutoranda gaúcha (honorária, mas gaúcha) em terras hispalenses.
    Mucho ánimo con la tesis y saludos!

    • Glenda DiMuro says:

      Marina, a gente sofre, né? Da onde vc é?

      • Marina says:

        Sofre, e como sofre!
        Nasci em Minas, mas passei a maior parte da vida em Porto Alegre, por isso me considero gaúcha. Agora também um pouco sevilhana, depois de cinco anos e meio aqui… 🙂
        Tua pesquisa não só parece muito interessante, como também utilíssima e necessária. Moro no centro e gosto de frequentar os mercados, como o da Puerta de la Carne, mas seria legal encontrar alternativas, principalmente sabendo que isso estimula a pequena produção. Podes me dar alguma dica de onde comprar hortaliças diretamente dos produtores aqui?

        • Glenda DiMuro says:

          Claro! Só posso te dar dicas…hahaha… Estamos montando uma rede de produtores e consumidores de Sevilla! Vou te mandar um email!

  14. Marina says:

    Oba, valeu! 😀

  15. Priscila says:

    Achava que o seu doutorado tinha algo com agricultura por causa da sua hortinha no ap…rs.. Não sei pq liguei uma coisa a outra de vc ser arquiteta (e urbanista é claro! rs). Mas enfim, parabéns pelo tema da tese, é muito últil!

    • Glenda DiMuro says:

      Hehe… Pois é, mas sabes que a horta veio antes! Mas a tese não é sobre essas hortinhas particulares, mas de hirtas grandes e produtivas! E hortas comunitarias! Bj

  16. Romulo says:

    Oi Glenda,
    muito interessante o estado da arte de sua tese.
    Você chegou a finalizar? É que trabalho em uma revista científica e podia fazer uma pauta sobre o assunto. Alguém aqui no Brasil também com isso?
    obrigado

    • Glenda DiMuro says:

      Oi Romulo! Tenho algumas publicações mas não relacionadas ao caso de Sevilla, e a estou no segundo ano da trse, ainda não tenho muita coisa elaborads para publicar.Suponho que ai no Brasil tenha gente trabalhando com o tema, mas como ando por estes lados, acabo me relacionando com os exemplos europeus (até mesmo pq os contextos são distintos). Nãosei que tipos de informação quetes, mas posso te passar várias referências.

  17. Priscila says:

    Olha… sabe que depois do seu feedback, eu pensei no quanto é utilíssimo mesmo esse trabalho! Conheço tantas pessoas que pensam em fazer a vida na cidade e depois ir sossegar no interior e fazer uma hortinha… Uma atividade como essas hortas comunitárias nas grandes metrópoles poderia trazer N benefícios para a sociedade em variados aspectos!Como a sociedade interagir mais, a preservação do ambiente e economicamente também! Ou seja, nada do que Doutora aí já não saiba né rsrsrs… Me interessei de verdade Glenda, quem sabe num futuro próximo adoto a atividade! 😉 bjoss

  18. says:

    Bah nao sabia nada sobre essa tal de agricultura urbana! Eu moro em Porto Alegre.
    Muito boa a tua explicação!!! Sou leitora do blog há um tempinho, mas nunca posto comentários.
    Bjs e tudo de bom ai pra ti!!!

  19. Fábio says:

    Oi, Glenda. Tinha já um tempinho que nao visitava o blog. Aí me deparo com essa postagem boa demais (de verdade!). Sou leigo de pai e mãe no que diz respeito a Arquitetura e Urbanismo, mas mesmo assim acho que consegui captar.
    Sabe-se-lá-o-que me faz sentir bem lendo as idéias deste espaço.
    Obrigado!

    Abraço

  20. Cuca says:

    Eu sabia que era doutorado. E sabia que era arquitetura (urbanismo, soube agora). Não perguntei por vergonha de não saber mais depois de tanto tempo. Gostei de saber. 🙂

    • Glenda DiMuro says:

      ô Cuca, vergonha? Hahaha… Tá certo, mas também a gente nunca conversou sobre isso. Pior os amigos que eu contei e recontei minha pesquisa e volta e meia me vem com a pergunta: é doutorado, né?

  21. wilma says:

    Sempre que ouço alguma coisa ruim da Espanha com relação aos brasileiros é aqui q venho pra amenizar minha sensação. Sabia que você era Arquiteta, apesar de não ter lido todo seu blog, e geralmente sempre se complementa com Urbanismo e Paisagismo,pelo menos os poucos que conheço aqui se dizem atuar nas três. Mas isso não importa, só fiquei curiosa porque escolheu a Espanha, alguma peculiaridade, além de todos os campos verdes terem sido coloridos?! Parabéns,é uma tese bastante necessária,pelo menos de alimento, todos precisaremos sempre!!!

  22. Marcelo says:

    Parabens pela pesquisa Glenda!

    Eu tambem estava fazendo um doutorado na Inglaterra e sei como e’ duro.

    Por lo menos tienes Sangria, Jamón y mucho sol!

    X

  23. Christiano Coelho says:

    Glenda, a tempos venho lendo sobre Sevilha, pois ficarei 5 meses por ai, mas nada parecido com esse seu blog. Primeiro deixa me identificar: sou biólogo, mestre e doutorando em ecologia (objetivo da minha viagem-doutorado sanduíche – US). Fiquei super interessado na sua tese, isto pq leio muito sobre permacultura e procuro soluções inteligentes para uma vida urbana melhor. A minha última “obra” foi a construção da minha casa, toda em tijolos solo-cimento, detalhe, fiz todos os tijolos no terreno da casa, 230 metros quadrados de construção sem nenhuma parede rebocada, somente os tijolos. Agora estou na fase das paredes verdes e na produção das verduras e hortaliças para nosso consumo, busco soluções para superar a falta de espaço. Bem é isso, sou de Minas mas moro no interior de Goiás. TE pedi algumas dicas para alugar um apartamento mobiliado no blog brasileiros em Sevilha. Grande abraço e parabéns pelos posts.

    • Glenda DiMuro says:

      Olá Christiano1 Que joia, é isso ai, tenho certeza que sua casa deve ter ficado muito bonita. Horta em casa não é fácil, principalmente em climas extremos como o aqui de Sevilla. Mas consigo meus tomates e pimentões! Vou te responder lá no Brasil com Z sobre o piso para não misturar as coisas.

  24. Puxa!
    Que belo projeto!!
    Bjoos!

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Glenda Dimuro