bookmark bookmark  
Glenda DiMuro On September - 27 - 2012

Poucas vezes venho aqui falar da minha vida profissional. Talvez seja porque no momento ela anda bastante repetitiva (tese, tese e mais tese), uma rotina de tirar qualquer um do sério. Mas o fato é que hoje começaram as aulas de «Hábitat y Desarrollo» (Hábitat e Desenvolvimento), uma cadeira optativa da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Sevilla, dirigida pelo meu orientador. Ano passado ele me chamou para participar, colaborar nas aulas e orientar os alunos. Este ano ele convidou também as outras gurias do nosso Grupo de Pesquisa, ao total somamos 7 ajudantes e um professor.

É uma disciplina que trabalha com conceitos e práticas de produção e gestão social do hábitat, desenho de processos, pesquisa-ação-participante, pensamento complexo, enfim, uma série de temáticas e ferramentas de trabalho que eu nunca tinha ouvido falar durante meus longos anos de faculdade.

Assim como em 95% (me arriscaria a dizer 100%, mas como tampouco sou a rainha da verdade e não conheço o mundo inteiro, melhor deixar assim) das faculdades de Arquitetura formam profissionais para o mercado. Não propriamente para o mercado de trabalho, mas para o mercado econômico. Cada vez mais o cliente é considerado um «inimigo», isso quando existe um cliente de carne e osso. Na nossa atual conjuntura econômica e social o tipo de projeto «chave em mãos» está sendo perfeitamente assumido como a única via de produzir cidades. Isso significa construir Hábitats Standards, não importando quem vai habitar esta casa, suas verdadeiras necessidades não são consideradas. É o que tem no mercado, principalmente se você não tem dinheiro para pagar por outro tipo de serviço.

Formei-me em arquitetura ouvindo que uma arquiteta com expectativas de subir na vida deveria viver numa cidade com um padrão econômico relativamente alto, onde borbulhariam clientes com capacidade para pagar bem por seus projetos. Aprendi a fazer orçamentos baseados no custo total da obra, ou seja, deveria cobrar pelo projeto uma porcentagem do que o cliente gastou para construir essa casa (nem sei se ainda se faz isso). Nunca fui 10 em matemática, mas essa conta nunca chegou a me convencer. Afinal de contas, que diferença existe entre projetar e/ou construir uma casa de madeira ou banhada a ouro? Por que deveria eu cobrar mais pela segunda se no final das contas estaria atendendo a mesma necessidade de ter um teto? Ok, quem sabe os cuidados que se deve ter na hora de banhar uma casa a ouro não sejam os mesmos pregar algumas madeiras, mas convenhamos, tem algo muito errado neste cálculo.

Outra coisa que nunca traguei foi a desigualdade incluída na própria normativa. O que primeiro me chamou atenção quando fui apresentada ao Plano Diretor da minha cidade era de que havia uma dimensão mínima para um quarto: 9m2. Se esse quarto fosse de uma casa popular, baixava para 6m2. Não sei se esse absurdo ainda segue na lei (temo que sim), mas não precisa dormir com a bandeira do comunismo para ver que uma pessoa é uma pessoa, independente da sua classe econômica. O mínimo é o mínimo, não importa de você é pobre ou rico.

Arquiteto estrela acima do bem e do mal, ou marionetes de construtoras comandadas pelo sistema econômico. Diálogo, contexto, horizontalidade, poder público em prol dos cidadãos, para que servem mesmo? Desenvolvimento é igual a crescimento econômico. Que triste este contexto que me criei. Eu e grande parte dos meus amigos arquitetos. Ouso dizer que todo o grêmio da arquitetura mundial é formado atualmente dentro destes parâmetros.

Felizmente, há muito tempo (ainda dentro da Universidade) comecei a descobrir outras opções e a trilhar outro caminho, para mim, muito mais gratificante. A arquitetura é uma profissão linda, não só pela beleza que podem chegar a ter suas linhas, mas porque atende a uma das necessidades básicas, e principalmente um direito de qualquer ser humano, a de ter um hábitat. E hábitat não é apenas um teto, é toda uma interrelação de fenômenos físicos-espaciais, mas também sociais, econômicos, políticos que facilitam ou limitam a satisfação dessas necessidades vitais. É uma pena que nas Faculdades de Arquitetura pouco se fale sobre isso, perdemos muito tempo entre projetos e tecnicismos (necessários, obviamente) que esquecemos que a arquitetura não é um fim em si mesmo, mas um meio. Um meio de alcançar tantas coisas, entre elas produzir cidades mais justas. Em tempos de especulações imobiliárias, nunca é tarde para lembrar que a arquitetura não é uma mercadoria, é um direito.

Enfim, por isso hoje estou contente. Porque mais um ano participo dessa disciplina que não é apenas «interessante», mas fundamental para a formação desses jovens e futuros arquitetos. Para ser um bom profissional é necessário mais do que dominar o Autocad ou o 3D Studio, mais do que fazer projetos que agradem aos olhos. Neste mundo precisamos de mais gente que trabalhe com arquitetura cidadã, arquitetura «cuidadora». Devemos ajudar a formar arquitetos atores mais que arquitetos autores, profissionais com capacidade de escutar, de trabalhar com a diversidade e a flexibilidade, mas principalmente de incluir a participação de todos os agentes envolvidos no processo de desenho e produção do seu próprio hábitat, reconhecendo suas verdadeiras necessidades e fomentando o espírito de colaboração e as relações horizontais como valores fundamentais para a construção de cidades mais humanas.

Não importa o número de rumos profissionais que vamos mudar. O importante é que estamos fazendo a nossa parte. Lembro até hoje das professoras que, mesmo sem intenção, me fizeram seguir este caminho. Nós temos muita intenção de tocar corações, tomara que consigamos.

Categories: Espanha

2 comentários

  1. Luiz Peter says:

    emocionante. se o texto era para um teste respondo – meu coração foi tocado. desejo que consigam que os ouvintes capturem suas mensagens – o que importa é ser feliz…

  2. Também fico indignado ao perceber que a maioria dos projetos arquitetônicos é para mansões e outros imóveis para pessoas das classes A e B. E os projetos populares, voltados para pessoas de poder aquisitivo menor, feitos com materiais mais baratos (e nem por isso de qualidade inferior)? Basta visitar as exposições de arquitetura e decoração nos moldes da Casa Cor – de São Paulo/SP – para constatar tamanha elitização.
    Creio que a Espanha e outros países europeus que sofrem com a severa crise econômica têm buscado alternativas para favorecerem os cidadãos que precisam ter um lugar onde reclinar a cabeça. Enquanto isso, condomínios e loteamentos fechados se multiplicam no Brasil numa proporção semelhante ao aumento do déficit habitacional, um paradoxo que até hoje não consigo engolir.

Deixe o seu comentário

Glenda Dimuro