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Glenda DiMuro On October - 10 - 2012

***Este post é do ano passado, mas decidi publicar novamente para tirar um pouco o pó do blog***

Quando eu era pequena, achava que 12 de outubro era feriado porque era o dia das crianças. E obviamente não era a única, já que, convenhamos, quando a gente é pirralha a combinação não ter aula+ganhar brinquedo é muito (muuuito) mais relevante que ir à procissão de Nossa Senhora Aparecida.

Aqui na Espanha também é feriado dia 12 de outubro. Não porque é dia gastar dinheiro com presentes infantis (dia que, oficialmente segundo a ONU, deve ser comemorado dia 20 de novembro), nem muito menos porque nesse dia alguém jogou uma rede lá no Rio Paraíba e resgatou a imagem da que seria a padroeira do Brasil. É porque nesse dia, há muitos e muitos anos atrás, um certo navegador chamado Cristóvão Colombo pisou seus pezinhos nas Bahamas.

O Día de la Hispanidad comemora o «descobrimento» da América. Também é chamado de dia del Pilar (padroeira da América e da Guarda Civil Espanhola¿?), dia de Colombo, dia da Pátria… A palavra hispanidad também significa todas as pessoas, países e comunidades que compartem o idioma espanhol e possuem uma cultura relacionada com a Espanha.

Muita gente dos países americanos (do norte e do sul) não vêm com bons olhos essa data, que na realidade comemora o dia em que começou o extermínio de diversos povos e culturas, uma exploração social, econômica e ambiental que em muitos casos dura até hoje.

Alguns afirmam que no dia que Colombo pisou a América foi quando começou o que hoje conhecemos como globalização, consumada pelas navegações cristãs-capitalistas e implantadas politicamente pelo colonialismo. Sou completamente a favor dessa teoria, e também estou do lado dos pensam que o feriado deveria mudar de nome e «comemoração» não seria a palavra mais adequada para acompanhá-lo.

Enfim, no Brasil não comemoramos o dia em que começamos a ser explorados – num sentido bem amplo da palavra – pelos espanhóis. Somos mais bairristas e comemoramos apenas o nosso próprio «descobrimento» por Cabral, lá em abril.

Queria ver o dia em que essa palavra «descobrimento» deixasse de acompanhar a «comemoração» das duas (e outras mais) datas, o dia em que os livros didáticos deixassem de contar que alguém nos descobriu, como se antes não existisse nada ou como se precisássemos que alguém nos fizesse conhecer pelo mundo afora. Isso seria um bom presente de dia das crianças, o dia em que nossos povos de verdade se descobrissem, não por outros, mas por si mesmos, para que uma data possa ocupar com dignidade a categoria de feriado e celebração.

Categories: Brasil

10 comentários

  1. Luiz Peter says:

    VAMOS REVOLUTEAR PARA REVITALIZAR…to contigo e não abro…

  2. Muitos indígenas sobreviventes desse genocídio todo e até alguns estudiosos argumentam que não houve “descobrimento” coisíssima nenhuma, e sim INVASÃO. E a “conquista das Américas” pelos “exploradores” (ou seriam saqueadores?) europeus, especialmente no México (onde os astecas e os maias foram simplesmente ex-ter-mi-na-dos), não deveria ser “comemorada”, mas lembrada como os japoneses se lembram anualmente da destruição atômica de Hiroshima e Nagasaki, como os estadunidenses se lembram do 11 de setembro, como os próprios espanhóis se lembram do 11 de março…
    Do jeito que a “primavera árabe” está espalhando-se pelo mundo, é capaz que os manifestantes que certamente farão o maior barulho pelas ruas de Madrid durante a parada do dia 12/10 lembrem bem ao resto do mundo tudo o que está no parágrafo acima.

  3. jesus pires says:

    deviamos dizer, data da descoberta da grande quantidade de ouro, prata e pedras preciosas existentes nas américas e que foram acabar no bolso, altares e afins da “civilização” européia…
    abraços,

  4. karine smith says:

    Coisa Parecida é cultura.
    E na verdade sempre me fiz essas perguntas sobre a comemoração de “descobrimento”.
    Mas nem tudo faz sentido mesmo, né?

    beijo e bom feriado

  5. Ernani says:

    Maravilha de análise! Os caras roubaram a terra dos verdadeiros donos. E o maior feito deles foi fazer todo mundo acreditar que essa era uma coisa boa. Ainda bem que ainda existe gente como vc pra contestar…
    bjo

  6. Oi Glenda, tudo bem? É a primeira vez que visito o seu blog e gostei bastante.
    Concordo com o que você disse, acho errado ensinar as crianças que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, como se ele não fosse habitado antes, e os índios? Eram ninguém? Na realidade, o rei de Portugal já sabia que existia a América e enviou Pedro para reconhecer oficialmente o Brasil, ou seja, a maioria dos acontecimentos que marcaram a história do Brasil são ensinados de maneira incorreta para as crianças e só quando você entra no ensino médio ou se aprofunda mais sobre o assunto, você descobre a verdade.

    Um exemplo disso é a abolição da escravidão, quando somos crianças imaginamos que a Princesa Isabel fez um ato nobre, aboliu os escravos porque quis, mas não foi assim, tudo foi um jogo de economia, a verdade é que a Inglaterra praticamente obrigou o país a libertar os escravos para ter mais mercado consumidor. Sim, e triste a realidade em que vivemos 🙁

    Bom, deixa eu parar de falar, ou melhor, escrever.

    Antes de ir quero te parabenizar pelo blog. Adorei e vou passar a acompanhar.

    Beijos :*
    Blog da Mylloka

  7. Cesar says:

    Que texto legal. Na Colombia a gente chama o 12 de outubro de “Dia da raça” pelo “encontro das tres raças”, é feriado e o mais estranho é que cada ano é mudado para a segunda feria mais próxima desse dia. Eu concordo que isso não é motivo para celebrações em América. O encontro foi difícil demais: doenças, assassinato de povos, exploração e escravidão marcaram os últimos 500 anos desde a época colonial.

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Glenda Dimuro