bookmark bookmark  
Glenda DiMuro On June - 24 - 2013

(Sei que o assunto do momento são as manifestações no Brasil, mas confesso que já estou até tonta com tanta discussão via Facebook – que se é com bandeira ou se é sem bandeira de partido, se são vândalos ou se sem violência não leva a nada, se usar camiseta branca ou camiseta de arco-íris, se é pela copa do mundo, pelos 0,20, pelos Guarani-Kaiowá ou por hospitais padrão «Fenadoce»… Como me disse uma amiga, “tá dose”. Cada um diz que protesta por uma coisa diferente, numa expressão do individualismo que só reflete a própria sociedade desorganizada. Mas vamos lá, que seja ao menos um processo de politização em massa da sociedade, que é disso que estamos precisando. E da criação de projetos coletivos – ou de apropriação de existentes – e da luta para alcançá-los)

gazpacho rojo No post anterior eu queria contar que participava de um grupo de consumo, mas acabei enrolando tanto que não consegui apresentar para vocês o Gazpacho Rojo.

Gazpacho Rojo é “um coletivo autogerido, de ação local, com um enfoque anticapitalista, que promove outras formas de consumir e de se relacionar com o meio, apostando pela justiça socioecológica e pela soberania alimentaria”. Ou seja, é um grupo de pessoas que se reúnem basicamente para consumir, mas não consumir de qualquer maneira. E não somente para consumir…

O coletivo, que se formou em 2009, se organiza principalmente entorno ao consumo de verduras e hortaliças. Estes alimentos proveem de uma horta localizada a mais ou menos 10km do centro de Sevilla, em uma zona periurbana com muita tradição agrícola, mas também com fortes tensões imobiliárias devido a tendência de crescimento da cidade (com a crise, todo este processo de especulação com os terrenos agrícolas próximo à zona urbana foram interrompidos… veremos até quando).

«Nossa horta», na realidade é de propriedade de Julián y Mari, que já faz alguns anos embarcaram em um lindo projeto proposto por uma associação com enfoque meio ambiental chamada «El Enjabre sin Reina» (O Enxame sem Rainha). Julián fazia o perfil do típico pequeno agricultor acostumado a viver sob a pressão dos mercados, ou seja, trabalhava muito e ganhava pouco. Em 2007, o pessoal do Enjambre conheceu a sua horta, eles ficaram amigos e logo lhe fizeram uma proposta: que tal começar uma transição do manejo da horta a ecológico (orgânico, como chamam no Brasil)?

julian+mari

 

Tenho certeza de que quando Julián aceitou a ideia louca de um bando de hippies nem imaginava a transformação que teria na sua vida… Tudo começou com uma mudança completa no sistema de distribuição dos produtos. Nada de intermediários, nada de acordar as 4 da manhã (depois de trabalhar 10 horas de sol a sol) para levar os melhores produtos ao MercaSevilla (centro de distribuição, onde os supermercados vão comprar os produtos que logo venderão pelo quíntuplo do preço) sem nenhuma folhinha picada, para depois voltar para casa com aquela sensação de que a vida no campo é dura (isso é) e não vale a pena. O Enjambre mexeu seus pauzinhos e depois de um boca a boca, não demorou muito para se espalhar a notícia que na zona norte de Sevilla havia um produtor que estava começando um processo de transição ao manejo orgânico e que precisava de apoio. Como existe nesse mundo mais gente interessada em além de comer bem, promover melhorias ao meio ambiente e também garantir condições dignas àquelas pessoas que nos alimentam,  do que imaginamos,  logo havia uma lista de espera de interessadas em comprar os produtos de Julián.

E o melhor de tudo, o pessoal ia até a horta buscar suas cestas. E tem mais, não importava a aparência dos alimentos (fundamental quando são vendidos aos grandes supermercados), mas sim o seu sabor e, principalmente, saber que ali não se escondem nenhum tipo de agrotóxico. Porque afinal de contas, os novos consumidores não comiam com os olhos.

O sistema foi evoluindo. Com o tempo os consumidores foram assumindo novos compromissos e hoje em dia, tudo funciona por meio de grupos de consumo que assinam um acordo com Julian e com o Enjambre de consumir X cestas por semana/ano, e pagar por adiantado todos os meses. Isso significa que a equipe «horta» tem a obrigação de fornecer toda a semana 12 cestas a Gazpacho (num total de 50, que se repartem a outros grupos de consumo) com mais ou menos 7 variedades de produtos de temporada (não, a gente não escolhe o que vem na cesta, é o que tem disponível naquela semana) sem nadinha de agrotóxicos. Em contrapartida, pagamos por adiantado e nos revezamos para toda santa terça-feira ir buscar as cestas na horta, e logo distribuímos num ponto de encontro no centro de Sevilla.

Parece complicado, mas não é. Gazpacho Rojo está formado por 12 grupos (equivalente a 12 cestas) e normalmente cada cesta é dividida por duas famílias. Por tanto, cada grupo é composto, no mínimo, por 2 responsáveis (algumas cestas são divididas entre 3). Cada grupo se compromete em ir à horta durante todas as terças-feiras de um determinado mês do ano. Durante todos os demais, somente tem que ir buscar sua cesta num local muito central de Sevilla. Ao total somos mais de 30 pessoas que nos beneficiamos desse projeto, e nos organizamos muito bem. Além dos encontros na hora do «reparto» (e da cervejinha de depois), uma vez ao mês fazemos uma assembleia onde tratamos sobre assuntos vários, não somente relacionados com a cesta/horta, mas também com a compra de outros produtos, cuidamos na nossa «formação» (chamamos gente ou aproveitamos o nosso próprio capital para que nos deem palestras sobre a temática em questão), planejamos a participação e o apoio em outros eventos relacionados, enfim, sempre estamos bastante ocupados com a «causa».

reparto-gazpacho-rojo1 reparto-gazpacho-rojo21
Uma vez a cada 6 meses também nos reunimos na horta para uma assembleia que se realiza com a presença de Julian, Mari, o pessoal do Enjambre e todos os representantes dos outros grupos de consumo. Ali recebemos notícias de como anda a nossa horta, os problemas enfrentados, os superados… Também nos mostram as contas e avaliamos se o preço que estamos pagando garante um salário digno a todas as pessoas que ali deixam seu suor. Nosso último desafio está sendo participar na própria planificação dos cultivos, escolhendo o que queremos comer na próxima temporada dentro das possibilidades que a terra nos oferece.

Enfim, contei aqui um pouquinho do que é participar de um grupo de consumo. Óbvio que é bem mais «trabalhoso» do que estender a mãozinha numa prateleira do supermercado e escolher uma salada em um saco de plástico que já vem limpinha, em qualquer época do ano. Isso é outra coisa, é entender como funciona todo o processo e todo o caminho que percorre um alimento até chegar a sua boca (e todas as barbaridades que acontecem no trajeto).

Não me considero uma pessoa paranoica. Pouco a pouco estou mudando meus hábitos de consumo e comecei por algo tão básico como a alimentação. É claro que ainda não consegui me desprender definitivamente dos supermercados, até mesmo porque os canais alternativos de comercialização estão engatinhando (no bom caminho, mas ainda longe de favorecer a completa soberania) e é difícil (muito difícil) abdicar de toda uma vida de consumo, digamos, pouco responsável. Não sou vegetariana (mas com certeza como muito menos carne que antes), mas também não vivo sem um cafezinho pela manhã, ou sem um chocolate depois do almoço.

Já faz tempo que perdemos nossa relação com os alimentos. Fiquei a-pa-vo-ra-da quando assisti este documentário e vi que, entre outras barbaridades, as crianças não sabiam identificar o que era uma batata ou uma cenoura (batata para elas era Ruffles). Definitivamente não quero viver num mundo assim e já comecei a fazer a minha parte. O caminho é longo, mas é muito bonito.

Aqui na Europa a associação entre consumidores e produtores não é novidade (veja o caso francês da AMAP). Parece ser que no Brasil também tem muita gente que já se deu conta que o futuro é por ai. E então? Te animas a criar um grupo de consumo?

Mais informação sobre o Gazpacho Rojo!

Gostou do blog? Curte ai Coisa Parecida no Facebook!

Categories: Sua parte

3 comentários

  1. Há uma horta comunitária no canteiro de uma das principais avenidas daqui de Sorocaba. Acho que tem muito a ver com o trabalho de vocês e seria maravilhoso se mais cidades brasileiras abraçassem essa idéia. Num mundo onde a zona rural está ameaçada de extinção (não só pela expansão da zona urbana, mas também pelo aumento indiscriminado e descontrolado da quantidade de loteamentos e condomínios), iniciativas como esta trazem muitos benefícios a muitas pessoas.

  2. Genial, Glenda! Às vezes parece difícil fazer algo melhor pra gente e pro mundo, mas quando nos juntamos com outras pessoas com objetivos similares todo mundo se ajuda e aprende junto. Espero que coletivos como esse se multipliquem por toda parte 🙂

  3. Olá, adorei o seu blog, ao ler alguns posts, vi que você é uma pessoa esforçada que só quer falar e ser ouvida na blogosfera, assim como eu. Posso dizer que gostei muito do que li, vc tem um potencial enorme e sei que será um grande blog de fácil entendimento e conteúdo gostoso de ler. Sou Luciana Shirley do blog http://coisasecoisasdalu.blogspot.com.br/ se desejar me visite e siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

Leave a Reply to Luísa Ferreira

Glenda Dimuro