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A alegria de participar de um grupo de consumo

Postado por Glenda DiMuro em June - 13 - 2013 3 Comments

glendadimuro-0513-6308Você ai sabe o que é um Grupo de Consumo? Um bando de gente que se reúne simplesmente para comprar ou uma seção de terapia para aquelas que compram demais? Nem uma coisa nem outra.

Sempre que conto para alguém no Brasil que faço parte de um Grupo de Consumo aqui em Sevilla logo vem a pergunta: o que é isso? Então antes de sair contando como é legal o meu grupo e como isso vem mudando a minha vidinha, fui pesquisar um pouco sobre o conceito de grupos de consumo que se utiliza no Brasil.

De cara percebi que eles recebem um adjetivo: responsável. Faz sentido. Para mim está implícito que é consumo responsável, mas sempre convém deixar os pingos nos «is» para evitar mal entendidos.

E o que é consumo responsável então? É um conceito tão amplo como a própria atividade de consumir. Basicamente é quando a gente começa a pensar um pouco mais além quando estende a mãozinha numa prateleira do supermercado ou quando nos atiramos numa liquidação. Em situações mais avançadas, é quando se pensa até em que supermercado ou loja se vai entrar. E no que pensamos? Em muitas coisas, algumas tão simples como: de onde vem o que estamos comprando? Como foi produzido? Precisamos mesmo comprar isso?

Ou seja, é a escolha de produtos e serviços não apenas pela sua qualidade e preço, mas também pelo impacto ambiental e social que geram na sua elaboração e pela conduta das empresas que lhes produzem. Muitas vezes reclamamos das injustiças sociais que acontecem neste mundo mundial, nos dá raiva a extinção das espécies e nos apavoramos com as mudanças climáticas e com o buraco na camada de ozônio (isso já ninguém fala mais, né?). Algumas dessas barbaridades são de conhecimento geral da nação com internet, como o uso de mão de obra quase escrava nos países orientais. Outras um pouco menos, como pode ser a extinção dos pequenos agricultores por conta de expansão dos monocultivos e dos transgênicos na Ásia ou América Latina.

Mas não nos damos conta (ou não queremos nos dar conta) de que nossas pautas de consumo podem contribuir (e muito) para piorar as crises pelo planeta a fora. Nosso consumo afeta tanto o nosso entorno social e ambiental mais próximo, quanto a vida que se encontra a quilômetros de distância. Ora pois, o consumo, um ato tão individual e que depende (ao menos deveria depender) unicamente das nossas escolhas…

Enfim, em resumidas contas, consumir responsavelmente inclui usar a inteligência digna da nossa espécie com polegar opositor para fazer compras éticas, ecológicas e solidarias. E um Grupo de Consumo é um grupo de gente que pensa parecido e se junta para, entre outras coisas, comprar juntos, pagar o preço justo, estreitar o contato com quem produz e aumentar os benefícios (os nossos, os deles e os da natureza).

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E aqui em Sevilla já existem já alguns de grupos de consumo espalhados pela cidade, organizados basicamente em torno à alimentação e a produção agroecológica. O nosso se chama Gazpacho Rojo e funciona desde 2009. Começamos comprando cestas de verduras de um agricultor da zona norte da cidade (7km do centro) e hoje já ampliamos a nossa rede de produtores.

Semana passada, participei das Jornadas do Meio Ambiente contando um pouco sobre como funcionamos e pensei em compartilhar por aqui. Mas como esta introdução ficou longa, depois eu volto para contar tintim por tintim sobre como conseguimos organizar 30 pessoas para comprar alimentos saudáveis, garantir a dignidade de quem planta e ainda não agredir tanto a natureza.

Aguardem…

 

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Tentando voltar a ativa

Postado por Glenda DiMuro em June - 9 - 2013 18 Comments

Faz tempo que escrever aqui se tornou uma coisa bem difícil.

Não vou alegar falta de tempo como o principal motivo. Sempre achei um saco essas pessoas que vivem na «correria» e que dizem nunca encontrar tempo para nada que não esteja relacionado com seu trabalho. A gente sempre encontra tempo para fazer o que se gosta, isso é que questão de priorizar o que se faz com as horas livres.

Desde meu último ano aqui na Espanha, tudo o que eu penso em escrever aqui me parece das três uma: 1) fútil/superficial, 2) repetitivo, ou 3) duro de engolir. O que vou contar que já não tenha contado antes? Que (ou mais bem como) posso compartilhar, como posso explicar o que vivo sem ser mal interpretada? Como conseguir ser compreendida por pessoas que não vivem esta agridoce realidade sevilhana em pleno 2013?

Confesso que tenho medo de ficar «espessa» demais. Este blog já é antigo e ao longo desses 7 anos foi mudando de caráter segundo meu próprio amadurecimento. No inicio era uma forma de contato com a família e amigos, passando a ser pouco a pouco um blog de viagens e referências para quem queria vir morar na Espanha, mais precisamente em Sevilla. E os últimos posts tiveram um conteúdo mais bem «político», ainda que bastante diluído. E acho que com o tempo estou perdendo leitoras…

Meu ânimo para textos cor de rosa terminaram. Tudo o que sei sobre a burocracia de estudar por aqui e as dicas básicas de sobrevivência, eu já escrevi, basta fazer um passeio pelas postagens antigas. Cheguei à conclusão que acho um saco escrever dicas de viagens. Já faz tempo que eu nem viajo tanto e existem blogs especialistas na matéria que contam onde comer e o que visitar muito melhor que eu.

Sempre gostei de escrever sobre meu cotidiano, mas dai caímos em outro drama. Mais bem dois dramas. Primeiro, quando o blog tinha meia dúzia de leitores eu conseguia ser mais «relaxada». Não me preocupava tanto com as palavras porque, total, poucos iriam ler. Hoje não consigo achar espaço para aquela naturalidade de antigamente. Meço palavras e fico cheia de papas na língua. Outro saco, porque quem me conhece sabe que esta pessoa, comedida e que escolhe as melhores palavras para se expressar, não sou eu. Não mesmo. Segundo, depois de tanto tempo em Sevilla, já não tenho tantas «novidades»… daquele tipo que interessa quem vem visitar/morar/estudar por aqui.

E é por estas e outras que este blog está parado por tempo indeterminado. Mas uma coisa é certa, se eu continuar a escrever será sobre esta realidade impressionante que estou vivendo neste universo físico-temporal apelidado de «crise». Impossível não falar dela, que é onipresente. E não fiquem pensando que serão posts de lamuria, alarmando que este país está falido e sem solução. O que tenho aprendido neste último ano é que em tempos de crise, surgem oportunidades maravilhosas que talvez nunca tivessem tido a chance de vir à tona nos tempos de abonança.

Se isso vai interessar a alguém? Não sei… acho que poderia (ou deveria). E vou relatar a visão dos fatos que vejo com meus olhos, sinto na minha pele, com as minhas palavras.

Até breve, se eu não mudar de ideia.

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Um dia para plantar árvores

Postado por Glenda DiMuro em February - 18 - 2013 4 Comments

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Diz a lenda que uma pessoa para ter uma vida completa e poder morrer em paz deve plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho.

E ontem eu comecei meu caminho rumo à plenitude. Não, não estou grávida e também não terminei minha tese (que deve dar mais trabalho que um livro). Eu apenas plantei uma árvore. Parece mentira que logo eu, que adoro plantar, tenho uma horta no terraço e ainda participo de outra comunitária, nunca tenha plantado uma árvore sequer nestes 33 anos de vida.

Na verdade eu não plantei uma árvore, plantei várias, numa atividade de reflorestação participativa da fazenda Somonte, promovida pelo Grupo de Apoio de Córdoba e apoiada pela ONG que colaboro, Ecologistas em Ação. Ao total éramos umas 20 pessoas e plantamos umas 250 árvores (oliveiras, aroeiras, alfarrobeiras, carvalhos e murtas).

Muito provavelmente, ninguém ai do Brasil sabe a história de Somonte. Resumidamente, Somonte era uma grande fazenda (aproximadamente 400 hectares), localizada em Palma del Río (Córdoba), que pertencia a Junta de Andalucía (Governo do Estado). Há algum tempo estava subutilizada e servia para alguns experimentos com produção orgânica. Foi quando o governo decidiu privatizar e leiloar as terras. Foram a leilão em algumas ocasiões e cada vez o preço ficava mais barato, numa clara jogada de especulação por parte dos compradores interessados. Um dia antes do último leilão (há praticamente quase um ano, 4/03/2012), membros do «Sindicato de Obreros del Campo» e do «Sindicato Andaluz de Trabajadores» decidiram ocuparam a propriedade. Diziam que diante da existência de terra para trabalhar e de milhares de trabalhadores rurais desempregados, a Junta não poderia deixar que este solo fosse parar na mão de bancos ou de grandes latifundiários.

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A partir de então, ao redor de 30 pessoas se mudaram definitivamente para a fazenda e começaram a se organizar coletivamente para trabalhar a terra e a preparar o solo para os primeiros cultivos, todos orgânicos. Desde o principio, o projeto foi apoiado pelos movimentos sociais de todo o país, principalmente de Córdoba e Sevilla, que se comprometeram a dar saída à produção. Praticamente em todos os domingos o pessoal organiza o «Domingo Verde», com jornadas de trabalho no campo – com direito a um almoço pra lá de especial – com o objetivo de trazer o maior número de pessoas à Somonte, para que conheçam e difundam o que veem por lá.

E por lá tem horta para autoconsumo, cultivos de temporada para venda local, galinhas, ovelhas, cabras e, principalmente, muita vontade de trabalhar e de provar que outro tipo de agricultura, e principalmente de sistema agroalimentário, é possível. Não só possível como necessário, um sistema de produção de alimentos que nos aproxime da natureza e nos garanta a soberania alimentaria através de um trabalho digno e colaborativo.

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Plantamos várias árvores ontem, mas ainda falta muita semente para espalhar por ai. E iniciativas como esta devem ser apoiadas para que comece a mudança. Só vou conseguir pensar em colocar um filho no mundo se ao menos puder visualizar um mundo melhor para ele. E quem sabe eu um dia publique um livro contando tudo isso…

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Quem quiser ver mais fotos e ficar por dentro de tudo que acontece em Somonte, pode curtir a sua página no Facebook.

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A ilusão é o último que se perde

Postado por Glenda DiMuro em November - 25 - 2012 23 Comments

CRISE. Assim, em negrito e em maiúsculas. De preferencia gritando, ou melhor, falando num megafone. Para quem está dentro da Espanha, não preciso dizer mais nada. O povo está sofrendo na pele o significado e as consequências dessa palavra. Palavrinha pequena que em castelhano se escreve sempre no plural, «crisis», como uma espécie de pleonasmo enfatizando a sua extensão.

Quem está fora, nem sempre entende. Não sei que tipo de notícias chega ao Brasil sobre a realidade da Espanha, e da Europa em geral. Acontece que a «Europa» é um continente, e como tal, tem suas adversidades e complexidades. Europa é uma coisa, Espanha é outra, mesmo fazendo parte do todo. E se a Europa está mal das pernas, mas ainda consegue se manter em pé devido a força da Alemanha entre outros, a Espanha, como país, está quebrada. Economicamente falando e, em muitos casos, socialmente falando. QUE-BRA-DA.

Alguns falam da perda de uma geração inteira. Jovens recém-formados que não vão conseguir um trabalho nos próximos 10 anos. Adultos com mais de 40 anos que ficarão sem trabalhar até ter idade para se aposentar. Adolescentes que entram na universidade sem expectativa nenhuma de futuro. Para muitos, a crise é mais que econômica, é uma crise de auto-estima, de utilidade, de amor próprio.

A situação, desde o meu humilde ponto de vista, é bastante caótica. Vejam bem, não sou economista, nem socióloga, mas me considero uma pessoa inteligente e informada. E esse pequeno texto está longe de ser uma análise teórica sobre a crise na Espanha. Não me arriscaria a tentar descrever todo o problema e seu contexto, pois mesmo vivendo aqui há quase sete anos, não tenho conhecimentos suficientes. Depois dessa desculpa, acho que posso seguir escrevendo simplesmente o que sinto…

Por um lado eu sinto tristeza. Faz 30 anos que vendem a este povo um ideal de felicidade. A maioria das pessoas que eu conheço e conheci, ou são funcionários públicos, ou trabalhavam na construção civil, ou, de certa forma, eram financiados pelo governo ou pela «Europa» (estou falando das inúmeras ONGs e todo o pessoal que vivia da Cooperação Internacional e de serviços sociais terceirizados pelas administrações). Estou generalizando bastante, mas arrisco a dizer que 90% dos meus amigos são arquitetos ou trabalhadores sociais (isso significa que fizeram serviço social, aquela faculdade que sempre sobra vagas nas universidades brasileiras – ou pelo menos no meu tempo de estudante era assim). E todo mundo tinha emprego. O país vivia da construção civil e dos serviços prestados à população. Quebrando o setor imobiliário e o governo ficando sem um tostão, obviamente, todo mundo ficou sem trabalho.

Pouca gente tem seu próprio negócio. A Espanha é um dos piores países do mundo para abrir uma pequena empresa, tamanha a burocracia e a quantidade de impostos (ganhando apenas de alguns países da África). Dessa forma, não me estranha que a maioria espere uma saída que venha das mãos do próprio governo. Foram preparados para trabalhar muito e ganhar medianamente, com contratos supostamente indefinidos. A estes, que eram a maioria, os bancos davam empréstimos para que pudessem comprar sua casa e seu carro, e ainda gastar em comprinhas. Hoje se diz que uma pessoa tinha um SDM («sueldo de mierda» – salário de merda) e vivia DPM («de puta madre» – ou seja, muito bem). Qualquer «mileurista» (1000€ era a média dos salários do povão) conseguia uma hipoteca e adquiria uma dívida muito superior a sua real condição de vida, mas que seria paga em cômodas prestações durante os próximos 40 anos.

Esta semana vi uma reportagem na TV que dizia que a maioria dos espanhóis vive por debaixo do nível de pobreza. Os entrevistados reclamavam que não conseguiam pagar a conta da internet. Realmente, pobreza de primeiro mundo não é a mesma pobreza que a gente conhece. Agora culpam a população por querem viver acima das suas «possibilidades». É verdade, mas por vezes acho injusta esta afirmação… te fazem acreditar que isso é felicidade e agora te puxam o tapete. Complicado.

E é por isso que eu sinto raiva. Óbvio que aqui ninguém é totalmente bom ou mau e muita gente disfrutou bastante nos tempos das vacas gordas, mas a “grande culpa” (desculpem, mas estudei em colégios de padres) está longe do cidadão comum. Culpe quem for: bancos, multinacionais, capitalismo… Só que grandes culpas também afastam as boas soluções para outras estâncias. Novamente estamos colocando o futuro nas mãos daqueles que detém o poder econômico… eles que resolvam o problema que criaram. E pior de tudo é que vão resolver a sua maneira e em benefício próprio, está claro.

Tudo começou com um recorte de salários aqui, uma diminuída no orçamento da educação ali, um postinho a menos acolá. Aumento dos impostos. Criação de contratos de trabalho que beneficiam somente os patrões. Proibição de atendimento médico a estrangeiros ilegais (inclusive a pessoas com doenças graves como Aids). Enfim, um desmantelamento progressivo do Estado de Bem Estar. E quando muita gente pensava que já não se podia cair mais baixo, começou a onda dos despejos.

A questão dos despejos merece um post aparte. Inclusive a «Europa» já criticou a política dos “despejos express” que está sendo aplicada pelo governo espanhol. Pois aquela gente que ganhava um SDM agora não ganha salário nenhum, e a vida DPM acabou virando um inferno. Sem dinheiro para pagar a hipoteca, veem seus apartamentos embargados pelos bancos e são colocadas no olho da rua. Famílias inteiras, sem trabalho, sem dinheiro e sem ter para onde ir (lembrem-se que eu disse que o nível de pobreza daqui não é o mesmo do Brasil, por exemplo, onde quem tem com pouco dinheiro constrói um puxadinho da casa de algum parente e se muda pra lá).

Mas no meio de tanta coisa ruim eu consigo sentir alegria. Em Sevilla, assim como em muitas outras capitais do país, diversos grupos de movimentos sociais estão se organizando e lutando a favor do direito universal a uma habitação digna. A Plataforma de los Afectados por la Hipoteca, a Stop Desahucios, integrantes do 15-M, e mais uma série de pessoas dos mais diversos âmbitos da sociedade, estão se reunindo e apoiando a ocupação de residências vazias nos centros das cidades.

Aqui do lado de casa ocuparam ontem um edifício que fazia anos que estava desocupado. Pertence a um banco, o mesmo banco que não concede mais hipoteca a ninguém, que tampouco negocia qualquer tipo de dívida e que emite a cada dia inúmeras ordens de despejo. É um ato reivindicativo, para mostrar ao povo, aos governos e ao mundo que o problema da habitação é que existem “gente sem casas e casas sem gente”. Corrala La Ilusión. Assim se autodenominam os ocupantes.

É complicado resumir em um texto toda a loucura que estamos vivendo aqui. É tudo meio surreal, observar como se desmorona todo um sistema. Hoje em dia, um emprego é um luxo. E com contrato, isso sim é uma ilusão. Parece piada, mas nas últimas semanas recebi diversos e-mails de brasileiros perguntando como está o mercado de trabalho aqui. Preciso dizer algo mais? Não gosto muito de estatísticas, mas para este caso eles resumem tudo: mais de 25% da população ativa desempregada, 52% de desemprego juvenil. Definitivamente, a Espanha não está no seu melhor momento.

E o desanimo contagia. O lado bom é que a ilusão também. E eu prefiro me agarrar a esta última. Veremos se conseguimos juntar os pedaços quebrados e chegar a algum lugar, um lugar melhor.

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Fico devendo um post sobre a questão dos despejos e do direito a moradia. Mas estou a mil para ir para o pelo Brasil.

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Glenda Dimuro