Devido a repercussão dos últimos posts, resolvi eu mesma ressuscitar alguns textos antigos e bastante pertinentes. Um deles é sobre a questão da crise e o trabalho na Espanha, já que volta e meia alguém, que está disposto a largar tudo no Brasil e se mandar para o lado de cá, me pergunta como anda a coisa…
Acho engraçado quando uma pessoa que nunca lavou as suas próprias calcinhas (leia-se também cuecas) me conta que quer morar na Europa e trabalhar de qualquer coisa. E não pensem que estou avacalhando com os garçons, faxineiras, ajudantes de cozinha, recepcionista de hotéis, babás, porteiros, etc. chamando o seu trabalho de qualquer coisa. Trabalhar de qualquer coisa, neste caso, significa ampliar o leque de opções de trabalho, incluindo aquelas que nunca, jamais, certa pessoa se empenharia em trabalhar no Brasil.A questão é sempre a mesma: Ok, já sei que a Espanha está em crise. Mas crise como? Será que eu não arrumo um trabalho de qualquer coisa?
Está claro que na Espanha as diferenças entre classes sociais são menos abismais que no Brasil. Tem pobre, uma imensa classe média e alguns ricos. O X da questão é que na prática todo mundo ganha quase a mesma coisa (ok, os ricos ganham muito mais, como em qualquer lugar do mundo). Tanto faz limpar o chão como ser balconista de loja de grife (e me arrisco a dizer como uma simples arquiteta num escritório de arquitetura), trabalhando de qualquer coisa você consegue ganhar um mínimo justo para pagar suas contas e, quem sabe, ainda sobra um pouco para o supérfluo. Sendo assim, aqui em Sevilla é bastante comum encontrar num mesmo restaurante a mulher que limpa os banheiros da academia e instrutor, o cara que distribui panfletos e o professor universitário, ou mesmo ter como dono do apartamento que você aluga (com 4 quartos, dois banheiros, condomínio com piscina em uma zona residencial de um bairro bom) um motorista de caminhão do lixo, já que o poder aquisitivo (e o acesso ao crédito, claro) são parecidos.
Ou seja, trabalhos considerados por muitos de nós, brasileiros, como qualquer coisa, por aqui são atividades profissionais com renumerações como qualquer outra. O conceito de subemprego não está sempre relacionado diretamente com a atividade exercida, mas com o tipo de contrato e vínculo empregatício. Na Espanha são os chamados contratos “basura” (lixo): salários baixos em relação ao número de horas trabalhadas, contratos temporários, baixos custos de demissão… e estas são apenas algumas características dessa “nova” forma de empregar do falido Estado do Bem Estar. Na maioria das vezes não existe nenhum contrato assinado e muito menos garantias ou ajudas na hora da demissão. É daí vem o adjetivo lixo: usa e joga fora, um profissional totalmente descartável, independente do nível educativo.
É o mais parecido que podemos encontrar com o famoso “bico” no Brasil. Só que aqui, não só de subempregos (no sentido brasileiro) se alimentam os bicos. Na Espanha, profissionais qualificados, com diploma de universidade e tudo mais (principalmente cidadãos estrangeiros) vivem de bicos, quase nunca relacionados com a sua profissão. Pós graduação em Gestão de Empresas Multinacionais trabalhando como barman. Mestre em Ecologia e Recursos Naturais e “passadora” de roupa, recebendo, em alguns casos, 3€ por hora.
Basicamente, existem dois tipos de pessoas que cruzam o oceano para viver a vida do lado de cá: os temporários e os que vêm “buscar la vida”. No primeiro bando estão os estudantes de intercâmbio, aqueles que chegam por um tempo determinado e estão dispostos (ou não) a trabalhar de qualquer coisa para pagar suas viagens pela Europa. Já vi socialite da minha cidade no Brasil de balconista de loja de roupas em Sevilla, trabalhando 12 horas e recebendo 35€ por dia (no final do mês parece bastante, mas é menos de 3€/h, e comparado com outros países da Europa é um salário ridículo). Em seis meses juntou dinheiro e conheceu boa parte da Europa.
Mas existem aquelas pessoas que vêm buscar algo mais na Europa, seja vivenciar uma cultura e forma de vida diferente, estudar por tempo indeterminado, mas principalmente são as que pensavam no Velho Mundo como seu futuro e sua garantia, na esperança de melhorar suas condições econômicas (suas e muitas vezes de seus familiares que continuam no Brasil – mas a história se repete com qualquer latino americano, africano, etc.), mas que no final acabam sendo alvo predileto dos contratos “basura”. Principalmente aquelas pessoas que não têm visto de residência ou trabalho. A questão já não é trabalhar de qualquer coisa, mas sim sob qualquer condição, qualquer salário e qualquer jornada de trabalho.
Em tempos de crise, a situação tende a piorar, não só para os estrangeiros (ilegais ou não) como para os próprios espanhóis. Se antes, quando a economia espanhola ia de vento em popa, os estrangeiros era bem vindos para fazer o “trabalho sujo” que nenhum espanhol queria fazer (lavar pratos, cuidar de crianças e idosos, construção civil, fábricas), agora o resultado é um bando de gente desempregada, de ambos os lados. Obviamente, situações como esta provocam sérios problemas também sociais porque todo mundo agora quer trabalhar de qualquer coisa, e as vagas são escassas. Muitos imigrantes já fizeram suas malas e voltaram ao país de origem e outras centenas de espanholes emigraram a outros países da Europa, e inclusive para o Brasil. As próprias medidas do governo, que facilitam a propagação de contratos temporais (e com isso diminuem os direitos dos trabalhadores e facilitam a vida dos empregadores na hora de demitir), contribuem para fragilizar ainda mais o mercado de trabalho atual na Espanha.
Por isso pense bem antes de se largar de mala e cuia para estes lados, principalmente para os países mais “pobres” da União Europeia. A coisa está feia e a nuvem negra seguirá por alguns bons anos, principalmente se seguimos (seguirem) apostando pelas mesmas políticas econômicas. Não sou eu quem vai dizer se vale ou não a pena viajar tantos quilômetros em busca de uma vida melhor, até porque o conceito de “vida melhor” é muito relativo e pessoal – e não me atrevo a defini-lo com meus escassos conhecimentos psicossociais. Mas se o que você vem buscando é “fazer dinheiro” ou encontrar uma oportunidade de trabalho na sua área profissional, a coisa complica, e muito.
Se mesmo assim decidir encarar a empreitada, respire fundo e, principalmente, não venha pensando que o mar está para peixe.
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