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Noche en Blanco em Sevilla

Postado por Glenda DiMuro em October - 22 - 2012 11 Comments

Já imaginou poder ir ao seu museu favorito à uma da madrugada? E ainda por cima grátis? Pois é, aqui por estes lados isso é possível em muitas cidades, pelo menos uma vez ao ano!

A iniciativa nasceu em Berlin, lá pelo ano de 1997, e se chamava «Der Lange Nacht» (A Noite Longa). O objetivo era oferecer uma programação cultural diferente à cidadania, abrindo os espaços de exposições da cidade de uma forma pouco habitual, ou seja, pela noite e entrando madrugada adentro. Em 2002, em Paris surge a «Nuit Blanche» (Noite Branca), que incorporava artes cênicas à programação noturna.

Pouco a pouco várias cidades europeias foram copiando a brilhante ideia. Em 2007 Sevilla começou a celebrar um evento parecido, chamado «Noche Larga de los Museos», onde todos os museos da cidade ficavam abertos até as duas na matina. Por falta de financiamento público, durou apenas três edições.

Este ano, através da iniciativa cidadã da Asociação «Sevilla se Mueve» e do blog Cultura de Sevilla e do apoio de outras diversas associações culturais, acontecerá no próximo dia 26 de outubro a «Noche en Blanco de Sevilla». A programação é extensa e inclui além de exposições e espetáculos de teatro e dança, também trilhas organizadas por monumentos históricos e bairros da cidade.

Estou aqui escolhendo o que fazer. Uma coisa já decidi: que quero fazer a rota pelo Patrimônio Industrial da Avenida Miraflores (coisa de arquiteta, eu sei). Durante o século XIX e principio do século XX esta região concentrava a grande maioria das fábricas de Sevilla, algumas que seguem em pé até hoje e tem muita história para contar.

Enfim, uma noite bem diferente! Se está em Sevilla não deixe de conferir a programação aqui. Depois volto para contar como foi,

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A festa do descobrimento da América

Postado por Glenda DiMuro em October - 10 - 2012 10 Comments

***Este post é do ano passado, mas decidi publicar novamente para tirar um pouco o pó do blog***

Quando eu era pequena, achava que 12 de outubro era feriado porque era o dia das crianças. E obviamente não era a única, já que, convenhamos, quando a gente é pirralha a combinação não ter aula+ganhar brinquedo é muito (muuuito) mais relevante que ir à procissão de Nossa Senhora Aparecida.

Aqui na Espanha também é feriado dia 12 de outubro. Não porque é dia gastar dinheiro com presentes infantis (dia que, oficialmente segundo a ONU, deve ser comemorado dia 20 de novembro), nem muito menos porque nesse dia alguém jogou uma rede lá no Rio Paraíba e resgatou a imagem da que seria a padroeira do Brasil. É porque nesse dia, há muitos e muitos anos atrás, um certo navegador chamado Cristóvão Colombo pisou seus pezinhos nas Bahamas.

O Día de la Hispanidad comemora o «descobrimento» da América. Também é chamado de dia del Pilar (padroeira da América e da Guarda Civil Espanhola¿?), dia de Colombo, dia da Pátria… A palavra hispanidad também significa todas as pessoas, países e comunidades que compartem o idioma espanhol e possuem uma cultura relacionada com a Espanha.

Muita gente dos países americanos (do norte e do sul) não vêm com bons olhos essa data, que na realidade comemora o dia em que começou o extermínio de diversos povos e culturas, uma exploração social, econômica e ambiental que em muitos casos dura até hoje.

Alguns afirmam que no dia que Colombo pisou a América foi quando começou o que hoje conhecemos como globalização, consumada pelas navegações cristãs-capitalistas e implantadas politicamente pelo colonialismo. Sou completamente a favor dessa teoria, e também estou do lado dos pensam que o feriado deveria mudar de nome e «comemoração» não seria a palavra mais adequada para acompanhá-lo.

Enfim, no Brasil não comemoramos o dia em que começamos a ser explorados – num sentido bem amplo da palavra – pelos espanhóis. Somos mais bairristas e comemoramos apenas o nosso próprio «descobrimento» por Cabral, lá em abril.

Queria ver o dia em que essa palavra «descobrimento» deixasse de acompanhar a «comemoração» das duas (e outras mais) datas, o dia em que os livros didáticos deixassem de contar que alguém nos descobriu, como se antes não existisse nada ou como se precisássemos que alguém nos fizesse conhecer pelo mundo afora. Isso seria um bom presente de dia das crianças, o dia em que nossos povos de verdade se descobrissem, não por outros, mas por si mesmos, para que uma data possa ocupar com dignidade a categoria de feriado e celebração.

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Poucas vezes venho aqui falar da minha vida profissional. Talvez seja porque no momento ela anda bastante repetitiva (tese, tese e mais tese), uma rotina de tirar qualquer um do sério. Mas o fato é que hoje começaram as aulas de «Hábitat y Desarrollo» (Hábitat e Desenvolvimento), uma cadeira optativa da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Sevilla, dirigida pelo meu orientador. Ano passado ele me chamou para participar, colaborar nas aulas e orientar os alunos. Este ano ele convidou também as outras gurias do nosso Grupo de Pesquisa, ao total somamos 7 ajudantes e um professor.

É uma disciplina que trabalha com conceitos e práticas de produção e gestão social do hábitat, desenho de processos, pesquisa-ação-participante, pensamento complexo, enfim, uma série de temáticas e ferramentas de trabalho que eu nunca tinha ouvido falar durante meus longos anos de faculdade.

Assim como em 95% (me arriscaria a dizer 100%, mas como tampouco sou a rainha da verdade e não conheço o mundo inteiro, melhor deixar assim) das faculdades de Arquitetura formam profissionais para o mercado. Não propriamente para o mercado de trabalho, mas para o mercado econômico. Cada vez mais o cliente é considerado um «inimigo», isso quando existe um cliente de carne e osso. Na nossa atual conjuntura econômica e social o tipo de projeto «chave em mãos» está sendo perfeitamente assumido como a única via de produzir cidades. Isso significa construir Hábitats Standards, não importando quem vai habitar esta casa, suas verdadeiras necessidades não são consideradas. É o que tem no mercado, principalmente se você não tem dinheiro para pagar por outro tipo de serviço.

Formei-me em arquitetura ouvindo que uma arquiteta com expectativas de subir na vida deveria viver numa cidade com um padrão econômico relativamente alto, onde borbulhariam clientes com capacidade para pagar bem por seus projetos. Aprendi a fazer orçamentos baseados no custo total da obra, ou seja, deveria cobrar pelo projeto uma porcentagem do que o cliente gastou para construir essa casa (nem sei se ainda se faz isso). Nunca fui 10 em matemática, mas essa conta nunca chegou a me convencer. Afinal de contas, que diferença existe entre projetar e/ou construir uma casa de madeira ou banhada a ouro? Por que deveria eu cobrar mais pela segunda se no final das contas estaria atendendo a mesma necessidade de ter um teto? Ok, quem sabe os cuidados que se deve ter na hora de banhar uma casa a ouro não sejam os mesmos pregar algumas madeiras, mas convenhamos, tem algo muito errado neste cálculo.

Outra coisa que nunca traguei foi a desigualdade incluída na própria normativa. O que primeiro me chamou atenção quando fui apresentada ao Plano Diretor da minha cidade era de que havia uma dimensão mínima para um quarto: 9m2. Se esse quarto fosse de uma casa popular, baixava para 6m2. Não sei se esse absurdo ainda segue na lei (temo que sim), mas não precisa dormir com a bandeira do comunismo para ver que uma pessoa é uma pessoa, independente da sua classe econômica. O mínimo é o mínimo, não importa de você é pobre ou rico.

Arquiteto estrela acima do bem e do mal, ou marionetes de construtoras comandadas pelo sistema econômico. Diálogo, contexto, horizontalidade, poder público em prol dos cidadãos, para que servem mesmo? Desenvolvimento é igual a crescimento econômico. Que triste este contexto que me criei. Eu e grande parte dos meus amigos arquitetos. Ouso dizer que todo o grêmio da arquitetura mundial é formado atualmente dentro destes parâmetros.

Felizmente, há muito tempo (ainda dentro da Universidade) comecei a descobrir outras opções e a trilhar outro caminho, para mim, muito mais gratificante. A arquitetura é uma profissão linda, não só pela beleza que podem chegar a ter suas linhas, mas porque atende a uma das necessidades básicas, e principalmente um direito de qualquer ser humano, a de ter um hábitat. E hábitat não é apenas um teto, é toda uma interrelação de fenômenos físicos-espaciais, mas também sociais, econômicos, políticos que facilitam ou limitam a satisfação dessas necessidades vitais. É uma pena que nas Faculdades de Arquitetura pouco se fale sobre isso, perdemos muito tempo entre projetos e tecnicismos (necessários, obviamente) que esquecemos que a arquitetura não é um fim em si mesmo, mas um meio. Um meio de alcançar tantas coisas, entre elas produzir cidades mais justas. Em tempos de especulações imobiliárias, nunca é tarde para lembrar que a arquitetura não é uma mercadoria, é um direito.

Enfim, por isso hoje estou contente. Porque mais um ano participo dessa disciplina que não é apenas «interessante», mas fundamental para a formação desses jovens e futuros arquitetos. Para ser um bom profissional é necessário mais do que dominar o Autocad ou o 3D Studio, mais do que fazer projetos que agradem aos olhos. Neste mundo precisamos de mais gente que trabalhe com arquitetura cidadã, arquitetura «cuidadora». Devemos ajudar a formar arquitetos atores mais que arquitetos autores, profissionais com capacidade de escutar, de trabalhar com a diversidade e a flexibilidade, mas principalmente de incluir a participação de todos os agentes envolvidos no processo de desenho e produção do seu próprio hábitat, reconhecendo suas verdadeiras necessidades e fomentando o espírito de colaboração e as relações horizontais como valores fundamentais para a construção de cidades mais humanas.

Não importa o número de rumos profissionais que vamos mudar. O importante é que estamos fazendo a nossa parte. Lembro até hoje das professoras que, mesmo sem intenção, me fizeram seguir este caminho. Nós temos muita intenção de tocar corações, tomara que consigamos.

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Sobre a capacidade de síntese

Postado por Glenda DiMuro em September - 14 - 2012 22 Comments

Tenho visitado muitos blogs amigos e lido muita gente reclamar da falta de comentários nos seus posts. É engraçado como a gente que escreve sente a necessidade de sentir-se ouvida, e se quem lê não dá seu feedback, é praticamente como se estivéssemos falando com as paredes.

Concordar, discordar, falar qualquer coisa, mas expressar alguma opinião é importante. Sempre digo que pior que o amor ou o ódio é a indiferença, e a falta de comentários pode ser a prova viva disso.

No caso desse blog que você está lendo, ocorre uma situação curiosa. Embora as visitas venham aumentando a cada dia, o número de interações não sobe na mesma proporção.

Pensando bem, não é tão difícil de entender esse fenômeno. Num mundo de «imediateses» e de 140 caracteres, que chega ao final de um post com mais de 400 palavras? Todo mundo tem pressa, quer informação mastigada, e nem sempre sua vida consegue ser tão cor de rosa ou tão negra a ponto de chamar a atenção dos curiosos de plantão, dispostos a ler posts intermináveis.

Tem uma coisa que eu nunca esqueci na vida e que me foi ensinada nas minhas primeiras aulas, logo que entrei na faculdade. A Rita, minha professora de História da Arquitetura (acho que era isso) mandou a gente escrever em poucas linhas sobre um tema que eu agora nem lembro qual era. Mas isso é irrelevante, o que importa é que eu achava impossível escrever sobre o assunto que ela propunha em menos de uma página. E então ela disse: vocês tem que ter capacidade de síntese.

Capacidade de síntese. Desde então nunca mais esqueci essa frase. A Rita provavelmente nem se lembre disso, mas eu sempre me recordo cada vez que escrevo um texto longo e sem fim (e muitas vezes que termina sendo desinteressante). Tudo o que você escreve fica muito mais interessante se puder ser diminuído pela metade.

É fato. Esse texto mesmo, já está ficando chato de ler. Mas quem disse que eu consegui desenvolver esta tal capacidade. Já se vão 9 anos que ela me disse isso e volta e meia ainda caio na lenga-lenga.

Agora mesmo, já cheguei nas 363 palavras, falei, falei e não disse nada. Acho que vou deixando por aqui. Quem sabe um dia eu consiga tocar os corações indiferentes e fazer com que soltem a língua aqui neste blog.

Quem sabe se eu conseguir ser «sintética» não fico mais interessante…

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Glenda Dimuro