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Novo bairro, nova vida

Postado por Glenda DiMuro em September - 9 - 2012 11 Comments

Sabe aquela velha história de que quando ganhamos alguma coisa perdemos outra? É sempre assim, tudo tem seu lado bom e seu lado nem tão bom. Deveria tirar isso de letra, afinal de contas, «morar no exterior» é a máxima encarnação da tal frase ai de cima. Mas parece que nunca me acostumarei a essa velha teoria…

Nos mudamos. Eu sempre dizia que não podia ir embora de Sevilla sem antes morar num ático. Tanto sonhei, procurei anúncios, pesquisei preços, dei com a cara na porta, que por fim consegui. E o apê é uma graça, muito mais do que meu bolso pode pagar.

Mas… (e sempre existe um mas) ando sofrendo um pouco com a adaptação, digamos, ao bairro. Mas precisamente à vizinhança.

Quando soube que o «casco antiguo» de Sevilla estava subdividido em pequenos bairros (normalmente com nome de santo associado à paróquia mais próxima), achei que era mera burocracia do censo. Aos poucos fui descobrindo as diferenças reais entre casa zona, seus habitantes, modos de vida, relações sociais, etc, etc, etc. Dizem que é maior centro antigo de toda a Europa, e eu não duvido. E por ser tão grande, obvio que não poderia ser todo igual.

No centro do centro está a zona monumental, aquela das lojas, dos turistas, dos hotéis, onde ninguém mora de verdade e onde é difícil encontrar algum supermercado ou açougue.

Depois tem a zona «pija», ou seja, zona da classe acomodada. Os edifícios estão, na sua grande maioria, reformados, bem pintadinhos, com jardins muito bonitos. É nesta zona onde moram as famílias que vestem seus filhos iguais (não tem a mínima ideia sobre o que estou falando? Pois prometo escrever um post inteirinho sobre o fenômeno de aproveitamento de tecidos que acontece por aqui, onde a mãe veste todos os filhos – de idades diferentes – com a mesma roupa, e em alguns casos a si mesma igual aos pequenos). Bairro de gente penteada (e quem sabe até com um BMW na garagem), mas também bairro de gente idosa. Tem supermercado, tem restaurante, tem cabeleireira. Não é um em cada esquina, mas tem.

Nós morávamos nesta zona do casco, no bairro de San Vicente. Não, não somos os únicos não abastados que vivíamos por ali. Como eu disse antes, é tudo muito heterogêneo e eu nem me dava conta de que morava num bairro assim até sair dele.

Quando nosso edifício pegou fogo, alugamos por um mês um apartamento na zona norte do centro antigo. Já na primeira semana deu para reparar que a vizinhança não era a mesma. Não era a mesma mesmo. Gente mais «descolada», se é que você me entende.

O que para mim pareceu estranho, já que as duas zonas são consideradas uma se pensamos no conjunto do centro antigo, é facilmente entendido por quem conhece um pouco da evolução urbana de Sevilla. Sem entrar em muitos detalhes, o centro sofreu um processo de degradação gradual desde o começo do século XX. Com a construção de bairros periféricos, quem podia ia abandonando as casas «velhas» para viver em um apartamento mais «moderno», tanto os ricos quando os mais pobres (que em muitos casos eram desalojados porque os edifícios eram declarados ruínas). Os antigos cortiços, aqui chamados «corrales de vecinos», onde todo mundo vivia numa grande casa, dividiam pátio e mantinham relações de vizinhança, foram pouco a pouco desaparecendo. O resultado foi que na década de 70-80 o centro estava caótico e a prefeitura iniciou um programa de restauração dos edifícios antigos. E isso deu inicio a um processo de gentrificação* brutal, casas vendidas a preço de banana para construtoras que, após a reforma, vendiam o imóvel a preços muito mais altos a novos moradores (já que normalmente os antigos não tinham mais condições de pagar no novo preço de suas casas). A zona norte, tradicionalmente mais boêmia, sofreu muito, pois muitos dos habitantes se negavam a abandonar as casas onde tinham vivido toda a vida. O resumo da história podemos ver na grande diferença entre os habitantes de um mesmo centro.

O meu novo bairro, o de San Gil, é um bairro com b maiúsculo. Localizado na zona norte do centro, é um bairro com vida própria, com gente de todos os tipos, principalmente donos de cachorros. Encontro tudo o que eu posso imaginar caminhando nada mais do que duas quadras, todo o tipo de comércio e serviços, bares e restaurantes.

Enquanto no outro éramos pessoas quase anônimas, aqui todo mundo se conhece. Em menos de uma semana já ficamos sabendo que a vizinha do lado (a que tem uma azotea cheia de cocô de bicho e não limpa nunca) tinha muito dinheiro, era dona de bares e hoje, bom hoje, só vendo para crer. Que o dono do bar da esquina só abre final de semana e que vende cocaína. Que o cara que dorme no terraço (com seu cachorro) e nunca acorda com o seu despertador, trabalha na única loja 24 horas do centro de Sevilla. Que a vizinha da frente (que tem 3 cachorros) é argentina e irmã de outro argentino (óbvio, né) conhecido nosso. Que a mulher da esquina era uma grande bailarina de flamenco. Que o vizinho de azotea (que agora já é amigo) tem uns 8 pés de maconha em casa. Já somos amigos do cara da venda, da mulher do chino, e até ficar devendo para o cara do bar a gente fica.

Contando assim não parece ter nada de mal, né? Na verdade não tem. Mas é tão diferente a forma como as pessoas se relacionam deste lado que estou demorando a assimilar. Enquanto no outro apartamento eu escutava passarinhos e o piano do conservatório, aqui eu escuto cachorro latindo, a música alta do vizinho (menos mal que ele é fã dos Stones), vizinho batendo boca com a mulher, bêbado gritando de madrugada. Parece que ninguém está muito preocupado se está incomodando o outro. É uma despreocupação generalizada e quer saber, por um lado é bom porque posso fazer meus próprios barulhos sem dar satisfação para ninguém. Enquanto no outro apartamento eu me sentia a pessoa mais ruidosa do mundo, sempre pensando se estava falando ou escutando música alta demais, aqui eu relaxei completamente. Afinal, tenho que me enturmar.

É bem verdade que estamos em temporada de janelas abertas. Impressionante, isso eu já tinha notado lá no meu antigo apartamento silencioso. Chega o verão e pimba, se escuta até o suspiro do vizinho. Para não morrer de calor, todo mundo dorme de janelas abertas e a privacidade vai pro beleléu.

O lado bom é que aqui só morre de tédio quem quer. É só colocar a janela na sacada, como fazem minhas sábias vizinhas de mais de 80 anos, e aproveitar a vista. Mais cedo ou mais tarde acontecerá algo interessante na rua ou na casa de algum vizinho.

E como diz a ciência, o ser humano se adapta ao meio. «Estoy em ello», como se diz por aqui. Estoy em ello…

 

*Chama-se gentrificação, uma tradução literal do inglês “gentrification” a um conjunto de processos de transformação do espaço urbano que, com ou sem intervenção governamental, busca o aburguesamento de áreas das grandes metrópoles que são tradicionalmente ocupadas pelos pobres, com a consequente expulsão dessas populações mais carentes, resultando na valorização imobiliária desses espaços. (Wikipedia)

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Intercâmbio em Sevilla: algumas dicas básicas

Postado por Glenda DiMuro em August - 2 - 2012 12 Comments

Já contei aqui no blog que por estes lados o «ano» não começa em janeiro, mas em setembro, citando o caso das agendas (que podem ser considerados por nós, brasileiros, como agenda de maluco, que começa no meio do ano e vai até o meio do ano seguinte).

Com o ano letivo não é diferente. Na Espanha, escolas e universidades retomam suas atividades após as férias de verão, ou seja, em setembro.

E todo inicio de ano acontece a mesma coisa, já estou começando a receber muitos e-mails e mensagens de brasileiros que vêm fazer intercâmbio por aqui, principalmente na Universidad de Sevilla. A maioria ansiosa com os preparativos e cheios de perguntas sobre alojamentos, custos de vida, transporte, alimentação e até sobre qual a melhor companhia telefônica para ligar para o Brasil.

Praticamente todos os temas que geram dúvidas já foram tratados aqui no Coisa Parecida. Então resolvi fazer um apanhado de alguns posts antigos que podem dar uma mãozinha para quem pretende viver em Sevilla no próximo ano.

Qual o custo de vida em Sevilla?
Um resumo dos principais gastos mensais e uma estimativa de um «mínimo» para sobreviver.

Alugando um cantinho em Sevilla
Dicas sobre como funcionam os alugueis por aqui, seja de um quarto ou de um apartamento mobiliado.

Quais os melhores bairros para morar em Sevilla?
Uma opinião pessoal sobre os diversos bairros de Sevilla, que pode ajudar na hora de decidir por onde procurar apartamento.

Vida de estudante: como economizar?
Uma série de conselhos básicos para quem vem com os bolsos poucos recheados.

Onde estão os comedores universitários em Sevilla?
Uma lista dos principais refeitórios universitários, onde se come relativamente bem, mas principalmente barato.

Sevilla em bicicleta
Descubra os prazeres desse meio de transporte na cidade com mais ciclovias da Espanha.

Celular na Espanha
Principais operadoras e tarifas.

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Mímimas máximas do verão em Sevilla

Postado por Glenda DiMuro em June - 26 - 2012 23 Comments

Todo ano é tudo sempre igual. Chega o verão na Espanha começam as reportagens na TV falando do calor, da tal massa de ar quente que vem da África, das dicas para não morrer desidratada ou torrada… (pensando bem, em tudo quanto é canto do mundo é igual. Ô jornalismo sem criatividade). E todo ano eu venho aqui no blog chorar as minhas penas. Se você AINDA não sabe, fique sabendo que Sevilla é in-su-por-tá-vel no verão. 40, 42, 43, 44 graus. Na SOMBRA. É mole ou quer mais?

Pois tem mais. Juro que já nem me preocupo com as temperaturas máximas. Nem vejo a previsão do tempo porque já sei que vai fazer sol e muito calor. CALOR e SOL. Chuva agora por estas bandas só em outubro e olhe lá (ai que saudade os temporais subtropicais). Um grau a mais ou a menos para quem está no inferno não faz a mais mínima diferença.

E falando em mínima, isto é a única coisa que me preocupa, a temperatura mínima.

Depois de alguns bons verões sevilhanos, aprendi uma coisa: existe uma temperatura máxima para que seu corpo consiga relaxar, ou seja, para uma boa noite de sono é necessário que a temperatura ambiente não ultrapasse certos limites, nem muito frio nem muito quente. Parece uma coisa óbvia, né? Nem tanto, principalmente para mim que detesto dormir com ar condicionado.

Dizem os entendidos, que a temperatura ideal para que você consiga dormir com os anjos está entre 17 e 21 graus. E numa cidade onde as mínimas noturnas (e digo madrugada) não baixam dos 26-28 graus, isso é uma missão impossível. A cada verão em Sevilla são registradas as mínimas máximas de toda Espanha.

Durante o dia me viro bem com o manual de sobrevivência que sigo a risca: saio de casa somente antes das 12hs, depois disso, janelas e persianas fechadas (penumbra total, admito), cancelo qualquer programação suicida de almoço na rua ou encontro antes das 20hs (prefiro marcar depois das 22hs) e pela noite, abro as janelas para pelo menos trocar um pouco o ar. Sim, eu sei, depressão total. Mas o verão em Sevilla é assim, de deixar louca qualquer pessoa mais sociável.

O legal de tudo isso é que a noite vira uma criança. Eu não sou a única pessoa que não sai de casa, quem pode só coloca o nariz para fora pela noite. Isso não é coincidência, é questão de lutar pela sobrevivência.

Parece que julho é o mês mais infernal de todos. Claro, isso porque em agosto a cidade fica vazia porque vai todo mundo para a praia (todos que podem e grande parte dos que não podem). Mas, como para variar sempre faço parte do timeco que não pode viajar mesmo (por questões de trabalho, por (falta de) dinheiro, por achar um absurdo os preços das viagens em agosto), me toca mais um verãozinho na frigideira da Andalucía.

E mais uma vez, aguentando as malditas mínimas máximas… Será que eu sobrevivo?

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O bilinguismo na Espanha: línguas oficiais e sotaques

Postado por Glenda DiMuro em June - 19 - 2012 6 Comments

Que na Espanha se fala espanhol, isso todo mundo sabe. O que muitos não sabem é que, ainda que o castelhano seja a língua predominante em quase todas as comunidades autônomas do país, o bilinguismo é uma prática bastante habitual entre os espanhóis.

Além do “castellano”, que é a língua oficial, existem outras co oficiais, que são o “catalán” (com as variações chamadas de “valenciano” e “balear”), o “gallego”, o “euskera” e o “aranés”. Todas, exceto o euskera, são originárias do latim e pertencem ao subgrupo das línguas ibero-românicas.

Segundo uma pesquisa realizada em 2005, o castelhano é a língua materna de 89% da população, o catalão/valenciano/balear é de 9%, o galego de 5% e o euskera de 1%, e ainda 3% tem uma língua de outras origens, fruto da imigração. A soma não é de 100% porque muita gente considera duas línguas como maternas…

O “catalán” é falado na Cataluña, onde fica Barcelona. O “balear” é falado nas Ilhas Baleares, onde estão Ibiza e Palma de Mallorca, por exemplo. Na comunidade Valenciana (onde obviamente se encontra a cidade de Valencia), se fala o “valencià”. Na Galícia, onde estão A Coruña e Santiago de Compostela, o idioma co oficial é o “gallego”, uma língua que mistura espanhol com português. Já no País Vasco, se fala o “euskera”, que é considerada uma língua “ilhada”, pois não se parece com nenhum idioma falado hoje em dia. Ainda existe o “aranés”, falada no Valle de Arán. O castelhano é a única ligua oficial em Asturias, Cantabria, La Rioja, Aragón, Castilla y León, Madrid, Castilla-La Mancha, Extremadura, Andalucía, Canárias, Murcia, Celta, Melilla e grande parte de Navarra.

 

Além dos idiomas co oficiais, ainda existem aqueles que são considerados simplesmente como “sotaques”, ou dialetos, que é o caso do andaluz (falado na Andalucía) e da língua falada nas Ilhas Canárias, por exemplo. Existe inclusive um grupo de pessoas que defende a regulamentação do “andalú”, com a criação de uma nova ortografia que permita aos povos do sul da Espanha “konzerbá nuehtro legao kurturá” (consevar nosso legado cultural).

Na Andalucía ainda tem gente que “sesea” e “cecea”… Isso é muito complicado de explicar e principalmente de falar! São os chamados fenômenos fonéticos (que para mim é igual como se falassem com a língua presa), mas na prática é trocar os sons de “z” e o “c” por “s” (zapato, normalmente se pronuncia “sapato”, mas quem sesea diz “ssapato”…)

Quem, como eu, aprendeu espanhol com nativos americanos ou inclusive com professores brasileiros, pode ter algumas dificuldades no início, mas logo vai pegando o ritmo. E em cidades tão cosmopolitas como Barcelona, muitos brasileiros dizem que sobrevivem bem só com o castelhano. Eu sou sempre a favor de falar a língua local, afinal de contas, meu castelhano está mais para “andalú” que outra coisa.

Dá para perceber o tamanho da diversidade cultural que existe num país de menos de 50 mil habitantes. Em cada canto se escuta um sotaque diferente, mas é claro que em todos estes lugares o espanhol “de toda a vida” também é compreendido e falado.

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Andaluz não é mole

No entando, em cidades da Espanha profunda (interior do interior) algumas vezes é mais difícil comunicar-se em castelhano limpo e claro. Isso não é lenda, é verdade. Um ótimo exemplo disso é esse video muito engraçado, de um pai que liga para o filho pedindo que ele lhe ajude com uma cabra. Óbvio que é da Andalucía profunda mesmo, mas o sotaque falado nas zonas urbanas algumas vezes não é muito diferente.

Escute com seus próprios ouvidos (primeira parte sem legenda e a segunda tem uma legenda em andalú):

Quem precisar de ajuda para entender, posso ver o que consigo fazer!

 

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Glenda Dimuro